Ernani Maurício Fernandes
meia-oito.
o ano da revolução.
História e Filosofia
Quase se tem a impressão de que 68
meia-oito.
o ano da revolução.
História e Filosofia
Quase se tem a impressão de que 68
pode ter sido planejado para servir como uma espécie de ponto de referência histórico.
Nenhum de nós que viveu o ano de 1968,
vai esquecê-lo nunca.
Eric Hobsbawm
Sumário
1
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Nanno Giganthy
2
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Caetano Veloso
3
Meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Eric Hobsbawm
4
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Maio em Paris
5
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do AI-5.
6
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Contracultura
7
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Stanley Kubrick
8
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Movimento Estudantil
9
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Roda Viva
Eric Hobsbawm
Sumário
1
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Nanno Giganthy
2
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Caetano Veloso
3
Meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Eric Hobsbawm
4
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Maio em Paris
5
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do AI-5.
6
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Contracultura
7
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Stanley Kubrick
8
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Movimento Estudantil
9
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Roda Viva
10
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Primavera em Praga
11
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Martin Luther King
12
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Guerra do Vietnã
13
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Geraldo Vandré
14
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Che Guevara
15
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Woodstock
16
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Emancipação Feminina
17
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da República do Terror
18
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Homem na Lua
19
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Guerra Fria
20
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Marshall McLuhan
21
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Grupo Opinião
do Teatro Oficina e do Cinema Novo
22
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Bossa Nova
23
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da UNE
24
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Arte Engajada
da canção de Protesto
do Centro Popular de Cultura
25
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Era dos Festivais
26
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Jovem Guarda
27
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Tropicalismo
28
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista dos Beatles e Rolling Stones
29
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Jimi Hendrix
30
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Jim Morrison
31
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Civilização psicodélica lisérgica
32
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Bob Dylan
Se os anos 50 foram marcados por uma juventude rebelde sem causa, nos anos 60,
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Primavera em Praga
11
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Martin Luther King
12
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Guerra do Vietnã
13
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Geraldo Vandré
14
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Che Guevara
15
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Woodstock
16
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Emancipação Feminina
17
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da República do Terror
18
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Homem na Lua
19
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Guerra Fria
20
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Marshall McLuhan
21
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Grupo Opinião
do Teatro Oficina e do Cinema Novo
22
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Bossa Nova
23
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da UNE
24
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Arte Engajada
da canção de Protesto
do Centro Popular de Cultura
25
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Era dos Festivais
26
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Jovem Guarda
27
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Tropicalismo
28
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista dos Beatles e Rolling Stones
29
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Jimi Hendrix
30
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Jim Morrison
31
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Civilização psicodélica lisérgica
32
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Bob Dylan
Se os anos 50 foram marcados por uma juventude rebelde sem causa, nos anos 60,
a marca foi a rebeldia com causa.
Os anos 50 são caracterizados pela primeira fase da Guerra Fria
Os anos 50 são caracterizados pela primeira fase da Guerra Fria
com o advento do Modo Americano e Soviético de Ser,
uma ascensão da sociedade americana e soviética no Mundo.
Hollywood, Rock n Roll e a Lista Negra do Comunismo.
Sputinik, Yuri Gagarin e Revolução Cubana.
O heroísmo dionisíaco de Elvis Presley.
Os anos 60 são caracterizados pela segunda fase da Guerra Fria
O heroísmo dionisíaco de Elvis Presley.
Os anos 60 são caracterizados pela segunda fase da Guerra Fria
com o advento da Contestação do Mundo diante de Tudo.
A Direita e a Esquerda. A CIA e a KGB. A Guerra do Vietnã. Paris de 68. Primavera em Praga. Woodstock. Marcha de Washington.
O heroísmo apolíneo de Bob Dylan.
Mas o ano mais importante deste período da História é o ano de 1968, que na verdade, o processo revolucionário se estende por toda a década de 60. Processo se iniciou nos meados dos anos 50 e termina nos meados nos anos 70.
Esta é uma época em que a Juventude faz a História e cabe a atual revisar os acontecimentos revolucionários e contestatórios
O heroísmo apolíneo de Bob Dylan.
Mas o ano mais importante deste período da História é o ano de 1968, que na verdade, o processo revolucionário se estende por toda a década de 60. Processo se iniciou nos meados dos anos 50 e termina nos meados nos anos 70.
Esta é uma época em que a Juventude faz a História e cabe a atual revisar os acontecimentos revolucionários e contestatórios
para saber que esperar não é saber,
quem sabe a hora não espera acontecer.
Ernani Maurício Fernandes - 2008
1
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Nanno Giganthy
Meia-oito é o Ano da Revolução.
Tudo que era deixa de ser,
Tudo que é deixa de ser,
Tudo que será deixa de ser.
Nada será como antes!
Meia-oito é o Ano da Revolução.
A explosão ideológica.
E a implosão sexual.
Maio em Paris e Primavera em Praga.
A Batalha na Maria Antonia.
Proibido Proibir.
Por que não falei das flores.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
A rebeldia das drogas.
E a transgressão das Artes.
A contracultura pop underground.
San Francisco Katmandú Woodstock.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
O divino é maravilhoso.
A psicodelismo é fantástico.
The Sargent Pepper e Alegria, Alegria.
A metafísica e a realidade.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
O hippie e o beatnik.
O libertário e o socialista.
O inconformista e o anarquista.
Flower Power e Women Libs.
Black is the beautiful.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
O submarino é amarelo.
A terra entra em transe.
A maconha e o LSD.
O Materialismo dialético.
O Taoísmo zen-budista.
Timothy Leary e Aldous Huxley.
On the Road e Idade da Razão.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
O liberalismo americano.
O socialismo soviético.
A CIA e a KGB.
A Guerra Fria.
A Guerra do Vietnã.
A Guerra do Napalm
e do Agente Laranja.
As revoluções Latinas Americanas, Africanas e Asiáticas.
Che Guevara.
MartinLuther King.
Ho Chi Minh.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
Manifestação estudantil.
Abaixo a Ditadura.
MEC-USAID e o AI-5.
Roda Viva e Ibiúna.
Abaixo a Repressão.
O povo unido jamais será vencido.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
Tortura e Esquadrão da Morte.
DOI- CODI DOPS - SNI e Censura.
Chico Buarque e Geraldo Vandré.
Passeata dos 100 mil e Edson Luiz.
Lamarca e Mariguella.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
Corações e mentes.
Sem Destino e Hair.
Camus e Marcuse.
Existencialismo e Marxismo.
Anarquismo e Tropicalismo.
Godard e Pasolini.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
Quartier Latin e Saint Germain-Prés
Jean Paul Sartre e Simone Beauvoir
Greenwich Village e Haight-Ashbury.
Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
Copacabana e Ipanema.
Vinícius de Moraes e Tom Jobim.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
Zé Celso e Oswald de Andrade.
Oficina e Antropofagia.
Stanley Kubrick
2001 - Odisséia do Espaço.
Mutantes e Elis Regina.
Blow-Up
e Deus e o Diabo na Terra do Sol.
I Like a Rolling Stones.
Mick Jagger e Bob Dylan.
Direitos Civis.
Ku Klux Klan e Malcolm X.
Meia-oito é o Ano da Revolução.
A nudez inocente
e a orgia de Dionísio.
O amor é livre. O sexo é livre.
O paganismo e psicanálise.
Paz e Amor. Revolução Armada.
A sublimação e a contestação.
A comunhão e a solidão.
Jimi Hendrix Experience.
As Portas da Percepção
e o Sonho Acabou.
John Lennon.
2
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Caetano Veloso
A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo e além da porta
Ao porteiro, sim e eu digo sim
E eu digo não ao não
Eu digo é proibido proibir
É proibido proibir, é proibido proibir...
Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas,
as vidraças, louças, livros sim
E eu digo sim, e eu digo não ao não
E eu digo é proibido proibir
É proibido proibir, é proibido proibir
Caí no areal e na hora ad vertis que
Deus concede aos seus para o intervalo em que
Esteja a alma imersa em sonhos, que são
Deus o que importa o areal, a morte, a desventura
Se com Deus me guardei é o que me sonhei
Que me sonhei que eterno dura é esse que regressarei
Me dê um beijo...
Mas é isso que é a juventude
que diz que quer tomar o poder!
Vocês têm coragem de aplaudir este ano
uma música que vocês não teriam coragem
de aplaudir no ano passado!
São a mesma juventude
que vai sempre, sempre,
matar amanhã
o velhote inimigo que morreu ontem...
Vocês não estão entendendo nada, nada, nada.
Absolutamente nada!...
O problema é o seguinte:
estão querendo
policiar a música brasileira.
Eu hoje vim dizer aqui
que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival,
não com o medo que sr. Chico de Assis pediu,
mas com a coragem.
Quem teve essa coragem de assumir essa estrutura
e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu (...)
Gilberto Gil está comigo pra acabarmos com o festival
e com toda a imbecilidade que reina no Brasil.
Acabar com isso tudo de uma vez!
Nós só entramos em festival pra isso, não é Gil?
Não fingimos, não fingimos que
desconhecemos o que seja festival, não.
Ninguém nunca me ouviu falar assim.
Sabe como é?
Nós, eu e ele,
tivemos a coragem de entrar em todas as estruturas
e sair de todas, e vocês?
Mas eu e o Gil já abrimos caminho...
Não fingimos aqui que desconhecemos
o que seja festival, não.
Ninguém nunca me ouviu falar assim, entendeu?
Só queria dizer isso, baby, sabe como é?
Nós, eu e ele,
tivemos coragem de enfrentar
em todas as estruturas e sair de todas.
E faze-la explodir...
E vocês? E vocês?
Se vocês em política forem como em estética,
estamos feitos!
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Eric Hobsbawm
O ano de 1968 é uma data importante na história de todos os três mundos nos quais os observadores gostavam de dividir o planeta na era da Guerra Fria: o “Primeiro Mundo” do capitalismo ocidental, o “Segundo Mundo” dos países comunistas e o “Terceiro Mundo” da Ásia, África e América Latina.
Quase se tem a impressão de que 68 pode ter sido planejado para servir como uma espécie de ponto de referência histórico. Ninguém que viveu o ano de 1968 conseguirá esquecê-lo. Para nós, contém acontecimentos públicos que nos comoveram do mesmo modo que os americanos — mas não apenas eles — se sentiram comovidos pelo assassinato do presidente Kennedy. Nós o recordamos não apenas como manchetes de jornal ou imagens na TV, mas como parte integral de nossas vidas pessoais.
Agora, enquanto escrevo, consigo rever a imensa enxurrada de estudantes, cujas manifestações lotavam as ruas de Paris no início de maio, à qual se juntava, de terno e gravata formais, meu amigo Albert Souboul respeitável historiador da Revolução Francesa, profundamente desaprovador da contracultura e da esquerda heterodoxa, mas moralmente compelido a sair em passeata “quand lê peuple descend dans la rue” (quando o povo vai para as ruas). Eu me vejo caminhando por um árido vale galês numa manhã de agosto, incrédulo e desesperado depois de ouvir no jornal matutino da rádio a notícia da invasão soviética da Checoslováquia.
Basta dizer — “1968” e nós, que já éramos maiores de idade na época, mergulhamos novamente naquele ano extraordinário. Por outro lado, aqueles para quem 1968 é uma memória viva, hoje estão na meia-idade ou já são velhos. Quem estava vivo em 1968 necessariamente tem pelo menos 50 anos hoje. Quase ninguém com menos de 55 anos pode legitimamente considerar esse grande ano parte de sua vida consciente.
Assim, para o benefício das gerações posteriores a 1968, pode ser útil começar por recordar o que realmente aconteceu durante aqueles doze meses notáveis. Quase tudo foi inesperado. As economias dos países ocidentais viviam o auge do que os observadores franceses iriam chamar de “les trente glorieuses”, a maior era de prosperidade e crescimento na história do mundo industrializado.
A última coisa que previam seus políticos, ou mesmo seus intelectuais reconhecidos, eram tumultos em cidades como Paris ou a conversão aparentemente repentina de uma massa de homens e mulheres jovens de classe média à causa revolucionária.
A última coisa que qualquer pessoa esperava na época, dentro ou fora do mundo comunista foi o que aconteceu na Checoslováquia: um partido comunista no governo se convertendo oficialmente a um pluralismo tolerante.
Já era possível prever que os EUA, com todo seu poderio global, não poderiam manter sua posição permanentemente no Vietnã, mas quem, mesmo no Natal de 1967, previa a ofensiva do Tet e seu impacto quase imediato sobre a política interna dos EUA?
Esse caráter aparentemente repentino e inesperado foi o que tornou os acontecimentos de 1968 tão dramáticos e espantosos. E houve muitos desses acontecimentos.
O ano começou, ou com a ofensiva norte-vietnamita do Tet, que, como hoje sabemos, rompeu a determinação dos EUA e tornou certa sua derrota no Vietnã. Levou quase imediatamente a decisão do presidente Lyndon Johnson de não candidatar-se à reeleição, em grande parte devido à pressão das manifestações estudantis de repúdio contra a guerra.
Isso, conseqüentemente, levou à eleição de Richard Nixon como presidente dos Estados Unidos naquele mesmo ano.
Mais ou menos na mesma época, Alexander Dubcek assumiu a liderança do Partido Comunista checo. À renúncia do presidente, seguiram-se as reformas da Primavera de Praga, que procuravam estabelecer um “comunismo com rosto humano”.
Entre 20 e 22 de agosto, o regime de Dubcek foi derrubado por uma invasão soviética na Checoslováquia. A vitoria dos reformistas em Praga gerou manifestações estudantis na Polônia, que foram severamente reprimidas. O grupo ultranacionalista dominante no governo polonês atribuiu a culpa pelas manifestações aos judeus. A maioria dos poucos milhares de judeus ainda remanescentes no país foi expulsa.
A primavera também foi a estação da crise na França. Os chamados “acontecimentos de maio” foram não apenas a maior mobilização estudantil da história francesa, como também se ampliaram, gerando o que foi possivelmente sua maior greve geral...
Se essa agitação extraordinária poderia ter se transformado na primeira revolução européia ocidental em tempos de paz desde a Espanha em 1936 foi uma questão muito debatida na época. Provavelmente, não.
Porém, embora o general de Gaulle tenha sobrevivido à crise, sua renúncia um ano mais tarde foi certamente uma conseqüência direta, embora atrasada, de maio de 1968, como também, provavelmente, o foi a restauração da União da Esquerda, sob um programa comum, no início da década de 70.
Os chamados “acontecimentos de maio” na França foram seguidos quase que de imediato na Iugoslávia por enormes manifestações estudantis em favor da reforma. Mas o presidente Tito teve o bom senso de conciliar com os estudantes, no dia 9 de junho.
O fato de a movimentação estudantil ter ocorrido quase simultaneamente tanto a leste quanto a oeste da chamada “Cortina de Ferro”, constitui um dos aspectos mais inesperados e significativos de 1968.
O movimento estudantil não se limitou na Europa. No outono, quando o palco dos acontecimentos atravessou o Atlântico, dessa vez em direção ao México, seu episódio mais espetacular foi o massacre de estudantes e outros num grande comício público na Cidade do México, pouco antes da abertura dos Jogos Olímpicos.
A manifestação representou o ponto culminante de uma grande agitação estudantil e popular nesse país. Embora tenha sido freada imediatamente por uma repressão implacável, é significativo o fato de que a política do governo mexicano tenha se deslocado para a esquerda sob o governo do presidente seguinte, Luis Echeverria Alvarez (que, enquanto foi ministro do Interior, fora responsável pela repressão).
Outro fato inesperado ocorreu na América Latina. A morte de Che Guevara, em 1967, marcou o fim da mal-pensada tentativa cubana de difundir a revolução de Fidel Castro, exportando a guerra de guerrilha ao continente e, incidentalmente, transformando a imagem de Che num ícone político universal.
Mas o lugar da guerrilha parecia estar sendo tomado pelos golpes militares progressistas, antiimperialistas (golpes conservadores eram fatos corriqueiros tanto dentro quanto fora da América Latina, haja visto o que ocorreu no Brasil e na Grécia).
O golpe promovido no Panamá pelo general Omar Torrijos resultaria num confronto acirrado e duradouro com os EUA. O golpe mais importante, dado no Peru por uma junta encabeçada pelo general Velasco, levaria à reforma agrária de mais longo alcance já realizada por um regime não-revolucionário no hemisfério ocidental.
Finalmente, retornando à Europa, vemos o início dos “distúrbios” na Irlanda do Norte, com confronto entre a polícia e manifestantes favoráveis aos direitos civis, em Londres.
Na Alemanha Ocidental, a tentativa de assassinato do líder estudantil Rudi Dutschke lançou a fase de agitação estudantil maciça no país, enquanto na Itália a combinação de manifestações estudantis e distúrbios com uma greve geral de 24 horas anunciava a grande agitação que atingiria seu auge no chamado “outono quente” de 1969.
Esses acontecimentos foram suficientemente dramáticos, mesmo que se incluam no rol aqueles que fizeram manchetes, porém cujas conseqüências provavelmente não tiveram alcance tão longo, como o assassinato de Martin Luther King e do senador Robert Kennedy, o levante — como sempre, inesperado — em Watts, o bairro negro da próspera Los Angeles, ou os atos simbólicos de radicalização afro-americana, como as saudações com punho fechado dos atletas negros nos Jogos Olímpicos daquele ano.
Mas é importante ter em mente ao menos quatro fatos que não podem ser identificados com nenhuma data específica em 1968, mas que continuaram durante todo o ano e deixaram nele a sua marca.
O primeiro destes foi a Grande Revolução Cultural de Mao na China, que chegava ao auge. É um episódio que os chineses prefeririam esquecer, mas que no ocidente, onde se sabia pouco sobre a China, inspirou uma moda de “maoísmo” (que durou pouco), principalmente entre jovens intelectuais seduzidos pelo chamado à revolução contínua feito pelo Grande Timoneiro.
O segundo foi a continuação do conflito no Oriente Médio. Depois da vitória israelense na Guerra dos Seis Dias, em 1967, as ações armadas de comandos palestinos se tornaram cada vez mais visíveis, assim como o contraterrorismo israelense.
O terceiro foi a trágica guerra civil na Nigéria, decorrente da tentativa de secessão de uma de suas regiões, em 1967. A guerra se arrastou durante todo o ano de 1968, até a inevitável derrota da separatista Biafra, diplomaticamente isolada.
Finalmente, fato tanto visível quanto audível, houve a reviravolta contracultural, que foi a grande revolução cultural do mundo ocidental. 1967-69 foram os anos dos maiores festivais de rock, de Monterrey a Woodstock e Altamont, e 1968 foi o epicentro dessa fase.
Os historiadores que passaram por 1968 inevitavelmente se recordaram de outro ano descrito, em termos de poesia sazonal, como “a primavera do povo”: 1848, o ano da revolução européia.
Como 1848, o ano de 1968 suscitou enormes esperanças, muitas vezes romantizadas. Como 1848, também terminou em decepção: os acontecimentos dramáticos no cenário público pareceram ter rendido muito pouco. (...)
Mas quem tomou as grandes decisões em 1968? Os movimentos mais característicos de 1968 idealizaram a espontaneidade e se opuseram à liderança, estruturação e estratégia. Sua ideologia natural deveria haver sido o anarquismo, mais do que as imagens de Marx, Lênin, Mao e Che preferidas por seus participantes mais politicamente conscientizados.
A arma natural da revolta de 1968 não era o fuzil ou a resolução política, mas o muro pichado, o cartaz improvisado e o microfone.
No entanto, é um erro tratar 1968 como se tivesse sido um ano de revolução fracassada ou, como dizem os historiadores em tom espirituoso quando se referem a 1848, “um momento de virada em que a Europa não virou”.
Foi, na melhor das hipóteses, um lembrete de que os fundamentos da era de ouro econômica no Ocidente estavam afundando, assim como o estavam aqueles das economias centralmente planejadas do tipo soviético, cujas falhas se tornavam cada vez mais evidentes.
Apesar disso, como ficou claro com a derrota da Primavera de Praga pelos tanques da URSS, ainda não chegara a hora da desintegração do império soviético, embora depois de agosto de 1968 tenha ficado claro que sua estabilidade se mantinha apenas devido à disposição de Moscou em intervir.
Nos países desenvolvidos do Ocidente, a era dourada do crescimento econômico e das políticas keynesianas de bem-estar social acabou mais cedo.
O ano de 1973 marca o ponto de virada principal, mas, na época, ninguém previa seu fim. Nenhum dos movimentos políticos mais importantes e, com certeza, nenhum dos partidos socialistas europeus contavam seriamente com a transformação do regime econômico, e a maioria nem sequer previa sua possibilidade.
O movimento estudantil no Ocidente, embora parecesse falar a linguagem da política, era um fenômeno alheio à economia e à política. Excetuando sua contribuição para a luta contra a Guerra do Vietnã o impacto que exerceu sobre a política e a agitação sindical não foi intencional.
Seu significado cultural nos países capitalistas desenvolvidos foi muito maior do que sua importância política, diferentemente dos movimentos análogos que tiveram lugar nos países comunistas e em outros regimes ditatoriais.
Na verdade, foi a erupção da transformação cultural, após duas décadas de transformação econômica e social sem precedentes, que faz de 1968 uma data significativa na história do século XX.
Conferiu uma aura dramática à revolução educacional que, em todos os três mundos, estava transformando os estudantes universitários de pequenas elites de classe média em vastos exércitos.
Na França, o número de universitários quase triplicou na década de 5O, chegando a 65O mil. Ela conferiu uma aura dramática à globalização das comunicações, que difundiam os mesmos ícones e as mesmas bandeiras de campus a campus, atravessando oceanos e continentes em questão de semanas.
Dramatizou a prosperidade sem precedentes, traduzida no poder de compra de um estrato social emergente formado pelos “jovens”, dotados de autonomia econômica e cultural. A indústria das gravações musicais passou a receber 75% de sua receita do rock, que seduzia majoritariamente os grupos etários na faixa dos 14 aos 24 anos.
‘Dramatizou o abismo crescente entre as tradições e os comportamentos, as esperanças, os temores e as expectativas das gerações pré e pós-década de 5O. Sobretudo, talvez, dramatizou a extensão pura e simples das mudanças nos comportamentos públicos e privados, como, por exemplo, naquela da relação entre gerações e sexos que se dava nos anos 60.
Afinal, foi essa a década em que a indústria francesa da moda feminina começou a produzir mais calças do que saias; da queda acelerada na porcentagem de pessoas que escolhiam o sacerdócio católico como vocação e da presença de uma ativa contracultura dissidente.
Não eram fenômenos políticos, no sentido tradicional do termo, embora, como todas as transformações socioeconômicas e culturais mais importantes, tenham gerado conseqüências políticas e se expressassem, entre outras formas, na linguagem política aceita como tal – como aliás, ainda o fazem.
No entanto, embora a retórica de 1968 não traçasse uma distinção clara entre o fazer amor, viajar no ácido e fazer revolução, a conversão de John Lennon após 1968, a uma espécie de radicalismo político que levou o FBI a acumular uma grande ficha a seu respeito, constitui um dos aspectos menos significativos do fenômeno do rock, em geral e dos Beatles, especificamente.
O que 1968 trouxe à tona (de maneira espetacular no ocidente, menos dramática na Europa comunista e ainda mais moderada no Terceiro Mundo) foi a extraordinária aceleração das transformações sociais das décadas das posteriores a 1945, que os historiadores vão reconhecer como as mais revolucionárias da história mundial.
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista de Maio em Paris
.
Retornando ao ano de 68, principalmente com as questões revolucionárias da juventude, devo argumentar que, desde a primeira metade do século passado, que se comenta de um mal-estar da juventude.
Talvez por ainda não estarem ligados diretamente às estruturas da sociedade, os jovens sempre resistiram em aceitar passivamente o que a burguesia e os governantes tinham a lhes oferecer. Na maior parte das vezes, o que se vislumbrava adiante era uma vida massacrante e sem sentido, regida pela exploração e pela lógica hipócrita da moral burguesa. Muitos recusaram a oferta e esta recusa foi expressa por diferentes gerações e de diferentes formas.
A geração que viveu depois da I Guerra Mundial sofreu o impacto da Revolução Russa e lutou para derrubar o capitalismo. A geração seguinte lutou e derrotou o nazismo e o fascismo nos campos de batalha e nas mobilizações de rua.
Milhões de jovens morreram defendendo a liberdade contra o mais monstruoso totalitarismo da História da Humanidade. Mas a revolta da juventude também se expressou muitas vezes em explosões de ódio sem objetivo.
Como em uma tarde de 1956, quando a avenida principal de Estocolmo foi invadida por grupos de jovens que quebraram vitrines, viraram automóveis e montaram barricadas. Tudo sem nenhum motivo aparente, sem nenhuma reivindicação definida.
Este tipo de explosão violenta é marca de nossos dias. É dada pela falta de perspectivas, pela dificuldade em se integrar às estruturas existentes, mas, se não evolui em seu caráter, permanece apenas como sinônimo de delinqüência, condenada à brincar de gato e rato com a polícia.
Frente a situações semelhantes, um amplo setor da juventude respondeu de uma maneira progressiva, aparecendo como um movimento próprio e questionando o seriamente o sistema.
Talvez o maior destes fenômenos tenha sido o Maio de 68 na França, uma ampla mobilização que influenciou radicalmente as estruturas da sociedade francesa e que captou como nunca o espírito de insatisfação da juventude.
As frases deixadas nos muros da capital francesa iam do confuso “Tenho uma coisa para dizer, mas não sei o que é”, até o “Sejamos realistas: exijamos o impossível!” É proibido proibir.
Meses antes, o movimento teve início com uma reivindicação inusitada. Influenciados por uma palestra de Wilhelm Reich, cerca de 60 estudantes de Nanterre ocuparam o alojamento feminino exigindo o direito de dormir com suas namoradas.
A partir daí, um verdadeiro furacão sacudiu Paris e outras cidades da França. Exigiam melhores condições de ensino e de trabalho, questionavam o regime repressivo da V República e do próprio capitalismo.
No olho deste movimento, jovens que se enfrentaram com a polícia no Quartier Latin, convocaram os operários da Renault e de outras empresas a engrossarem o movimento, o que influiu decisivamente para a convocação de uma greve geral. Em poucos dias, haviam se tornado o inimigo número um do presidente Charles De Gaulle.
Em 1968, descontentes com a disciplina rígida, os currículos escolares e a estrutura acadêmica Paris organizam protestos que levaram à ocupação da Universidade de Nanterre (a oeste de Paris), em 23 de março.
Eles contestam também a situação social e política do país e o governo do general Charles de Gaulle, em virtude do desgaste provocado pela guerra de independência da Argélia. Entre os slogans criados estão “É Proibido Proibir”, “O Poder Está nas Ruas” e “A Imaginação no Poder”.
A decisão da reitoria de fechar a faculdade, em 3 de maio, faz a Sorbonne abrir as portas para os alunos de Nanterre. Influenciados pelos estudantes, operários de Paris realizam protestos, ocupando fábricas e organizando passeatas e greves.
No Quartier Latin, bairro dos intelectuais em Paris, há barricadas. Em 6 de maio, ocorre o confronto entre 13 mil jovens e a polícia. Os policiais lançam bombas de gás lacrimogêneo, respondidas com pedras pelos jovens.
Entre os líderes estudantis destacam-se Daniel Cohn-Bendit e Tiennot Grumbach. Nos dias seguintes, continuam as manifestações, e cerca de 150 carros são danificados ou incendiados. A princípio, o governo francês fica paralisado. Mas a situação é controlada no final de maio, com violenta repressão. No total, são mais de 1,5 mil feridos. O governo de De Gaulle, abalado, sustenta-se no poder somente até abril de 1969.
Os acontecimentos em Paris fazem parte de um movimento maior de contestação que ocorre em vários países do Ocidente, como Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda (Países Baixos), Suíça, Dinamarca, Espanha, Reino Unido, Polônia, México, Argentina e Chile. Jovens e trabalhadores protestam contra a situação do pós-guerra, as guerras e as ocupações imperialistas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os jovens opõem-se à Guerra do Vietnã e fazem manifestações do movimento hippie.
Nas críticas, de modo geral, existe uma mistura de radicalismo político e irreverência, que acusa tanto o capitalismo como o socialismo.
No Brasil, há manifestações estudantis contra o Regime Militar de 1964 e a reforma universitária proposta pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) em 1967, que adota o modelo norte-americano de educação.
Somente em 2028 os arquivos do governo francês sobre Maio de 68 estarão disponíveis ao público, porque a legislação exige que se espere 60 anos depois dos fatos para a abertura de dossiês confidenciais.
Mas a revista semanal francesa L’Express teve acesso a dezenas de dossiês e fichas, conservados tanto pela direção dos Renseignements Généraux (RG) (Informações Gerais) do Ministério do Interior e do Departamento de Polícia quanto pela polícia parisiense. Neles lemos na fonte as instruções e as inquietações do chefe da Polícia, Maurice Grimaud, e de seu diretor de gabinete, Jean Paolini, assim como centenas de preciosas anotações coligidas no calor da hora por policiais, funcionários e até parisienses anônimos.
Tudo passa pela sala do comando: o cálculo do número de feridos e de presos, o estoque de víveres e gasolina feito na capital e as conversas de “taupes” (toupeiras) infiltradas na Sorbonne e no Teatro do Odéon ocupados.
Pela primeira vez, o Maio de 68 é visto não do lado dos estudantes ou de seus líderes, mas do lado das forças institucionais e do poder.
Certamente, trata-se de uma visão parcial que não menciona a violência dos policiais. Mas é por meio dessas anotações e dessas conversas que o poder gaullista viveu essa “revolução”.
Na verdade, a História não conservou senão duas vítimas desses acontecimentos: um comissário de polícia em Lyon e Gilles Tautin, um ginasiano afogado no Sena, em Flins, depois de uma perseguição policial. A L’Express revela as condições reais de uma terceira morte em Paris.
A seguir, trechos destacados do relato de Maio de 68, visto do outro lado das barricadas.
“Ontem, das 17h20 às 17h40, o M. Missoffe, ministro da Juventude e dos Esportes, visitou o novo centro esportivo da faculdade, na Rua de Rouen, nº 2, em Nanterre. O ministro fez perguntas técnicas ao arquiteto, principalmente sobre as instalações de aquecimento e ventilação, assim como sobre o sistema de purificação da água.
À saída do M. Missoffe, cerca de 50 estudantes que o esperavam receberam-no com gritos hostis. O ministro tentou iniciar um diálogo.
Um estudante de origem alemã, o M. Marc Daniel Cohn-Bendit, pediu-lhe, então, que se discutisse a questão sexual. O ministro achou que era uma brincadeira.
No entanto, o estudante insistiu no tema e declarou que a construção de um centro esportivo era um método hitleriano destinado a dirigir a juventude ao esporte para desviá-la dos problemas reais, ainda que fosse necessário, acima de tudo, assegurar o equilíbrio sexual do estudante.”
Esse diálogo surrealista, coligido por um policial dos RG, numa anotação de 9 de janeiro de 1968, é, na realidade, o verdadeiro ponto de partida de um terremoto que iria, quatro meses depois, paralisar a França e estremecer a república gaullista.
O jovem estudante vermelho da faculdade de Nanterre, que desafiou dessa maneira o ministro do general, iria se transformar no símbolo da “revolução” de 68.
Nesse dia de janeiro, era ainda um total desconhecido para os franceses. Sem sabê-lo, um inspetor da 2ª Seção dos RG iria redigir um relatório (nº 1353/28) sobre um acontecimento que entraria para a História.
Ele está datado de 22 de março de 1968. Assistimos diretamente à criação do movimento que iria levar os estudantes à rua. Sua origem foi a prisão de um jovem militante de extrema esquerda, Xavier Langlade, abordado logo depois de ter participado de uma ação de envergadura contra a American Express, em Paris.
Os estudantes ocupam certos locais administrativos da faculdade de Nanterre e decidem criar um órgão de revolta, o Movimento do 22 de março.
O poder vai dar um monumental passo em falso: fechar Nanterre e fazer o “agitador” Cohn-Bendit comparecer diante do Conselho de Disciplina da Sorbonne, quer dizer, como está numa anotação dos RG, “atiçar fogo em Paris”.
O M. Cohn-Bendit e seis colegas estarão presentes, em 6 de maio, às 9 horas. Os interessados tomarão conhecimento de seus dossiês uma hora antes. Por uma questão de solidariedade com seus colegas de Nanterre, os estudantes estão convidados pela Unef e pelo Movimento do 22 de março a se unir a eles.
Em razão da tensão reinante atualmente nos meios estudantis, essa reunião, da qual duas mil pessoas podem participar, apresenta o risco de incidentes. Bem pensado! Tomando rapidamente o poder, o “destacado alemão Cohn-Bendit” provocará, a partir de 3 de maio, as primeiras agitações na Sorbonne.
No dia 4, às 15h35, o comissário da 5ª Circunscrição (5º arrondissement) recebe uma carta explosiva de quatro linhas que vai levar aos primeiros confrontos do Quartier Latin: “O reitor da Academia de Paris, presidente do conselho da universidade, abaixo-assinado, requer as forças policiais para restabelecer a ordem dentro da Sorbonne, expulsando os agitadores.
Às 16h40, o comandante Petit e seus homens invadem a rua da Sorbonne “e põem nos carros os jovens apreendidos”.
Pela primeira vez, os jovens ocupam as ruas parisienses e repetem as atitudes dos partidários da Comuna. Uma explosão de violência que deixa os policiais estupefatos.
Um comissário relata: “574 prisões foram feitas, entre as quais as de 179 menores, 45 mulheres, 58 estrangeiros.
Maio de 68 havia começado. O poder e a polícia vão ter de se adaptar a seus novos adversários: os esquerdistas.
Já em 29 de abril, numa nota intitulada “A situação na região parisiense”, os Renseignements Généraux constatavam: “Desde o começo do ano de 1968, o centro da cena vem sendo ocupado pelos movimentos de extrema esquerda, que trouxeram um novo estilo à contestação tradicional das formações estudantis clássicas.”
Mas eles logo amenizam seus propósitos e se gabam de que “até hoje a massa estudantil não participou das desordens registradas, das quais tomou parte uma minoria certamente agitadora, que no plano parisiense, porém, não passa de 5% dos estudantes inscritos na faculdade”.
Essa versão, no mínimo otimista, será violentamente contestada alguns dias depois da desocupação da Sorbonne, sentida como uma provocação. Dessa vez, os RG descobrem, com inquietação, que as organizações esquerdizantes constituem um verdadeiro estado-maior que tende a estruturar o movimento.
Em 10 de maio, ao final da tarde, na Praça Denfert-Rochereau, doze mil manifestantes ganham o Quartier Latin pelo Boulevar Aragon.
O serviço de segurança estudantil impede alguns “raivosos” de se agredir na prisão de la Santé. O Boulevar Saint-Michel e a Rua Gay-Lussac vão então conhecer o que se chamará a grande “Noite das Barricadas”, o episódio mais duro entre os acontecimentos de maio.
Nada fazia supor que iria haver tal ímpeto de violência. Tanto que no início da noite o reitor e os estudantes estavam em negociações, seguidas de perto por Alain Peyrefitte, ministro da Educação, até 1h55. Durante todo esse período, o poder esperava ainda um apaziguamento.
O subdiretor do 9º Distrito, levemente impaciente, anota em seu relatório de 11 de maio: “Assisti de perto ao filme da destruição da calçada, da utilização de uma picareta, da derrubada de uma árvore, da retirada de postes de sinalização, da construção de barricadas, que se elevavam diante de nossos pelotões, passivos em razão das instruções recebidas.”
Só às 2h01 as forças policiais foram liberadas para agir: 6.255 policiais vão então se encontrar no meio de uma verdadeira insurreição em plena Paris.
Os tumultos só cessarão nos primeiros clarões da aurora. Cedinho, o espetáculo é surpreendente: 125 carros danificados, 63 incêndios, ruas devastadas e destruídas, como depois de uma cena de guerra, 247 policiais feridos, sem contar os manifestantes.
No total, 469 pessoas foram interrogadas. Na noite de 24 de maio, Paris pega fogo. Em Lyon, pela primeira vez, um policial foi morto. “Uma manifestação, organizada pela Associação Geral dos Estudantes e a CFDT descambou, depois de diversas peripécias, relata um responsável policial, numa série de enfrentamentos graves entre manifestantes e policiais.
Diante dos contornos que a situação tomava, os estudantes retiraram-se, substituídos por grupos de jovens vadios, operários estrangeiros, até mesmo prostitutas. Entrincheirados na Praça dês Cordeliers, cujos acessos tinham sido bloqueados por barricadas, esses rebelados lançaram contra a segurança um caminhão, bloqueando o pedal do acelerador. O veículo atropelou, a toda velocidade, o comissário de polícia Lacroix, que morreu no impacto.
Naquela noite, outro drama se desenrolou em outro lugar. Pois um manifestante encontrou a morte em maio de 1968, em Paris. Ninguém nunca soube as circunstâncias exatas dessa morte, durante muito tempo atribuída a um acerto de contas com arma branca. A autópsia do corpo, mantida secreta, revelou, no entanto, que ele sucumbiu a explosões de bomba.
No entanto, esse caso não interfere no Maio de 68. O chefe de Polícia Grimaud explica por quê. Ainda que a agitação estudantil e as greves paralisem o país, os políticos tentam retomar o controle. A esquerda é o objeto de atenção dos RG. E principalmente o homem que pôs De Gaulle em segunda votação em 1965, François Mitterrand.
Uma nota de 22 de maio, intitulada “FGDS-PCF e Programa de Governo”, precisa: “O Sr. Mitterrand não acredita na crise do regime. Ele pensa que a CGT se prepara para negociar com o governo e o general De Gaulle está disposto a fazer grandes concessões.” São, finalmente, o PCF e os sindicatos que levarão 200 mil pessoas às ruas de Paris, em 29 de maio.
No mesmo momento, De Gaulle desaparece. Mas o grande acontecimento estava por vir, a manifestação de apoio ao general, em 30 de maio, nos Champs-Elysées. Os RG não deixam de ressaltar alguns slogans: “Mitterrand já era!” “Os imbecis vão ter com Mao!”,“Vermelho, vá para Pequim!”, “Giscard, conosco!”, “De Gaulle não está só!” Os RG não perdem seu famoso hábito de calcular: às 17h50, de 300 mil a 400 mil pessoas. Às 19h30, “a Praça de L’Étoile apresenta uma multidão incalculável...”
Os estudantes dominam pelo menos dois locais fortes no Quartier Latin: a Sorbonne e o Teatro do Odéon. O grupo Direção dos RG infiltrou vários “taupes” na universidade ocupada. E extraiu uma nota saborosa, em 29 de maio, intitulada “A Vida dentro da Sorbonne”: “Duas organizações estudantis dividem o poder, o Comitê de Coordenação dos Comitês Estudantis, escada A, ao lado do Instituto de Filosofia (dirigido por Jean-Louis Peninou e Marc Kravetz) e o Cleop (Comitê de Ligação Estudantes-Operários Camponeses, escada A, primeiro andar). Questões acerca de dinheiro parecem não existir na Sorbonne, para onde aflue contribuições que se elevam a 10 mil francos, talvez 15 mil. Os responsáveis pelos assuntos financeiros não estão nem preocupados com a cobiça dos arrecadadores, que chegam a tirar até 75% do que recolhem.”
A partir das duas horas, as pessoas que se encontram na Sorbonne não pertencem ao mundo estudantil. É o refúgio dos beatniks, dos vagabundos e de numerosos indivíduos que vêm se esconder de toda curiosidade policial. A desocupação do Odéon se mostrará complexa. A ocupação desse teatro irritava particularmente o general De Gaulle.
Assim, uma primeira operação secreta foi programada para a madrugada de 20 de maio. No total, 1.870 homens estavam em pé de guerra. Por volta da 0h15, um policial à paisana se introduz no teatro e descreve a situação aos seus superiores: “Três mil pessoas estão ainda lá dentro – das quais uns 50 atores, entre eles Sami Frey, Michel Piccoli e Raymond Rouleau.”
Por ordem do chefe de polícia a operação é anulada e às 2h40 os efetivos especiais são dispensados. No entanto, alguns dias depois, os RG, numa nota “muito confidencial”, datada de 13 de junho, preocupam-se com a situação dentro do teatro: “Cerca de 30 homens, a maior parte com ficha criminal, constituem, no Teatro do Odeon, um “comando de intervenção rápida” poderoso.
Quando essas pessoas são levadas a outro lugar, isso ocorre normalmente de madrugada, em grupo. Eles usam então ambulâncias ocupadas por pretensos feridos ou doentes e por dois ou três ‘enfermeiros’
Na manhã do dia seguinte, o teatro é desocupado sem muitos conflitos. No local, um homem apresentou-se como médico e recebeu o chefe de Polícia, com blusa branca e um estetoscópio pendendo das orelhas. Intrigados, os RG seguiram-no até o hotel onde morava.
Depois de investigar, constataram que ele era um escroque de origem latino-americana cuja especialidade era vender informações, principalmente à DST, a contra-espionagem francesa. O último bastião de Maio caíra. Por Laurent Chabrun, Jérôme Dupuis e Jean-Marie Pontaut, da L’Express – Tradução de Luíza Mendes Furia.
Daniel Cohn-Bendit – enfant terrible
Daniel Cohn-Bendit, o antigo Dany le Rouge das trincheiras estudantis de Paris, “reciclado”, hoje, em Dany Le Vert, por causa de sua nova coloração político-ideológica, se tornou o único líder reconhecido da mais importante rebelião de massas ocorrida na Europa Ocidental na segunda metade do século XX – o movimento de maio de 1968 na França. Agora, Cohn-Bendit, deputado pela Alemanha no Parlamento Europeu, mais do que nunca, faz figura de herói solitário. Os dois outros “cabeças” do movimento, Alain Geismar e Jacques Sauvageot, se eclipsaram da cena política, perderam contato com o outrora “camarade Dany” e se recusaram a falar do assunto por motivos misteriosos, mas que talvez tenha algo a ver com o caráter implacavelmente seletivo da história.
O certo mesmo é que, da literatura, o título mais citado no mundo dos livreiros parisienses, é o de Cohn-Bendit. O essencial sobre a trajetória intelectual e política do sarcástico “agitador de maio” – e que se define atualmente como um “liberal libertário”
Em 1945, quando do nascimento de Cohn-Bendit em Montaulban, França, seus pais judeus alemães, ali refugiados, pensavam em emigrar para os Estados Unidos, o que acabou não ocorrendo. Apátrida até a idade do serviço militar, ele adotou, então, a nacionalidade alemã. A França, que iria expulsá-lo de seu território após maio de 68, nunca deixou de ser, entretanto, o país de seu coração.
Os franceses sempre souberam corresponder a esse afeto e nunca o esqueceram... Já os políticos, tanto de direita quanto de esquerda, até mesmo os líderes ecologistas, vêem Cohn-Bendit com desconfiança, até mesmo medo, porque ele não tem papas na língua, diz o que pensa, sobretudo em público, não segue bem as regras do jogo diplomático da política, é incontrolável e, imperdoável, uma vedete mundial.
O que se pode dizer com certeza é que seu irmão mais velho, Gabriel, engajado desde jovem na militância anarquista, depois de extrema esquerda e também na luta clandestina na França pela independência da Argélia, teve grande influência na formação intelectual de Cohn-Bendit.
Gabriel lhe dava obras de Marx, livros sobre a Comuna de Paris, de Louise Michel para ler, entre outros, sobre as lutas antifascistas na Espanha e na Europa dos anos 30, os textos atualíssimos de Guy Debord sobre a sociedade da comunicação e do espetáculo, além de toda a literatura antistalinista européia produzida desde a década de 30 por autores de esquerda, mas considerados “crápulas e renegados” pelos partidos comunistas, obviamente sobre a canga stalinista de Moscou.
A esse cabedal de base, Cohn-Bendit “anexou” outras leituras dos tempos de faculdade em Nanterre e em seguida na Itália, onde tentou retomar seus estudos de sociologia e de ciência política, após sua expulsão da França em junho de 1968. Não conseguiu obter o diploma universitário, e a atividade política e a militância ecológica iriam, em seguida, se encarregar de perfazer sua formação nessa área.
O militante da ultra-esquerda, a vocação pacifista revelou-se no auge da rebelião de 68, durante a qual sua preocupação maior era a de que não houvesse mortes. Ora, quando o movimento atingiu o ponto máximo de incandescência, bastaria sua palavra de ordem, “Aux armes!”, para que a derrapagem para a violência física e/ou a guerrilha urbana se operasse instantaneamente.
Entretanto, pelo contrário, ele se empenhou inteiramente e conseguiu que as manifestações de rua conservassem a essência de seu sentido cívico, e não provocassem, em conseqüência, confrontos mortais. Nisso exprimiu sentimento idêntico ao das autoridades responsáveis pela segurança pública. Depois, diante dos grupos de luta armada formados na Alemanha, Itália e França pelos militantes, e decepcionado com maio de 68, ele se manteve na mesma linha de coerência em relação ao seu ideário pacifista – rejeitou formalmente qualquer tipo de apoio ao terrorismo.
Nos anos 70, suas convicções se achavam mais ainda reforçadas pelo movimento “Peace and Love”, iniciado pelas comunidades hippies nos Estados Unidos em contestação à guerra do Vietnã e pelo advento, na Europa e particularmente na Alemanha, do movimento ecológico, no qual encontrou pessoas que haviam efetuado a mesma trajetória política em que ele e todos os demais também eram pacifistas.
Isto, contudo, não o impediu de se bater em favor da anistia dos terroristas alemães, presos e condenados, alegando que a sociedade, em vez de canalizar as frustrações desses jovens, tratou apenas de lhes exacerbar o desespero com os mecanismos de uma repressão gigantesca.
Maio de 68 foi, na verdade, uma revolução intelectual, mental, como o próprio Cohn-Bendit reconheceu. Operou-se, então, uma mudança nas relações entre as pessoas que passaram a discutir: a França fez sua psicanálise.
Em todos os setores de atividade, da classe médica ao mundo artístico, do corpo de bombeiros aos sindicatos patronais e de trabalhadores, houve debates, foram inventariados os entraves a uma democratização mais ampla da sociedade francesa.
Evidentemente, que na cabeça das pessoas maio de 68 operou uma mudança, que se traduziu na onda feminista, na explosão das taxas de divórcio e de recusa do casamento, redução da natalidade e reivindicação de maior liberdade em matéria sexual.
Vale lembrar, aliás, que os primeiros tumultos do movimento começaram na Universidade de Nanterre porque o reitor proibiu uma conferência sobre Wilheim Reich, um dos ideólogos da revolução sexual. Cohn-Bendit teve, então, o início de sua notoriedade marcada, ainda em Nanterre, com o ministro da Juventude e dos Esportes da época, a propósito da reivindicação para que os rapazes tivessem acesso aos dormitórios universitários das moças no campus.
Maio de 68 não atingiu somente os estudantes franceses. Suas atitudes impulsionaram uma onda de mobilizações em todo o mundo.
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do AI-5
No Brasil e em outros países da América Latina, o movimento estudantil protagonizou sucessivas e numerosas manifestações. Pelos lados de cá, lutava-se por liberdades democráticas, combatendo regimes militares, instalados em muitos países do Cone Sul.
No ponto alto das mobilizações no Brasil, a passeata dos Cem Mil, a juventude era o setor mais importante da resistência. Maria Antonia. Depois de um ano de intensos combates nas principais capitais do país, a falta de lutas da classe operária isolou os estudantes e facilitou a decretação do AI-5 e o conseqüente endurecimento do aparato repressivo do estado, levando finalmente à derrota do movimento estudantil.
Por todo o mundo, a juventude cumpria papel de destaque e aparecia como um movimento contestatório.
Nos Estados Unidos, por exemplo, se iniciou a forte campanha contra a guerra do Vietnã, com protestos de rua e os concertos do movimento hippie. Com esta pressão crescente em seu país e com as inesperadas vitórias militares dos vietcongues nas florestas, o Tio Sam não teve outro jeito senão retirar-se do conflito.
A Força do movimento hippie demonstra como muitas vezes este “mal-estar”, este inconformismo da juventude desemboca na música e em outras manifestações culturais. As bases para o movimento hippie nos EUA já haviam sido deixadas mais de uma década antes pelos beatniks. O movimento beat expressou antes os questionamentos ao modo de vida burguês.
Em “On the Road”, um relato autobiográfico de Jack Kerouac, o país é atravessado de costa a costa, numa rotina de experimentações e descobertas, que mais tarde seria repetida pelos hippies. O Rock também foi sinônimo desta revolta, ajudando a expressar angústias e aspirações juvenis.
E, em letras ácidas, nos anos 70 o movimento punk cantou a morte da família real inglesa, símbolo da opulência em uma sociedade em que a falta de perspectivas dos jovens de subúrbio era expressa em três acordes.
Não foi apenas contra as formas de vidas carcomidas do capitalismo que a juventude se levantou. Do lado de lá do muro, a juventude incomodou os burocratas stalinistas, numa demonstração cabal de que socialismo não pode coexistir com privilégios e falta de democracia.
Também em 1968, a Primavera de Praga, movimento que exigia liberdades e que foi sufocado pelos tanques russos, fez com que milhares de militantes comunistas em todo o mundo rasgassem suas carteirinhas do partido.
Novamente no Brasil, o AI-5 foi a marca sangrenta da cultura brasileira. As classes estudantis e intelectuais tomaram o golpe fatal que repercute até os dias de hoje na Educação e na cultura do Brasil.
O acordo do MEC-USAID, com a instituição do modelo americano de ensino profissionalizante e a condenação das ciências humanas como a Filosofia, História e Sociologia, entre outras, mais a reforma de ensino de Jarbas Passarinho no início dos 70, fez com que as futuras gerações tivessem e tenham formações insuficientes para o desenvolvimento crítico do processo histórico da Atualidade.
O governo militar fecha o Congresso e decreta o Ato Institucional no 5, em 13 de dezembro de 1968. Mais abrangente e autoritário que todos os outros atos institucionais, o AI-5, na prática, revoga os dispositivos da Constituição de 1967.
Reforça os poderes discricionários do regime e concede ao Executivo o direito de determinar medidas repressivas específicas, como decretar o recesso do Congresso, das assembléias legislativas estaduais e das câmaras municipais. O governo pode censurar os meios de comunicação, eliminar garantias de estabilidade do Poder Judiciário e suspender a aplicação do habeas-corpus em caso de crimes políticos.
O ato ainda cassa mandatos, suspende direitos políticos e cerceia direitos individuais. Em seguida ao AI-5, o governo Costa e Silva decreta outros 12 atos institucionais e complementares, que passam a constituir o núcleo da legislação do regime.
"Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus princípios e idéias que adoto uma atitude com esta." Esta foi a declaração do Presidente COSTA E SILVA, naquele dia 13, o marechal seria protagonista de um espetáculo em que comandavam o país representaram todas as alegorias: o Cinismo, a Hipocrisia, o Servilismo, a Pusilanimidade, a Lisonja, a Subserviência.
O presidente apresentava naquela tarde a disposição de quem se preparara para não perder nada do espetáculo que ia dirigir; nem a excitação em que se encontrava ele queria diminuir.
Quando, às 16 horas, o seu médico, Dr. Élcio Simões, tirou-lhe a pressão e, assustado, quis medicá-lo imediatamente - segundo D'Aguiar, ele atingira 20 por 13 -, Costa e Silva retrucou: - Não, hoje preciso dela bem alta. Com a pressão mantida, o presidente Costa e Silva abriu, uma hora depois, a 43a. sessão do Conselho de Segurança Nacional, no Salão de Despachos no segundo andar do Palácio das Laranjeiras.
O vice Pedro Aleixo procurava convencer o presidente de que o estado de sítio era o instrumento constitucional indicado para resolver a crise. A conversa foi interrompida quando os membros do Conselho já estavam entrando no salão para ocupar seus lugares, em frente aos quais havia uma pasta com algumas folhas de papel datilografado. Na cabeceira, dois gravadores iriam funcionar como incômodos ouvidos da História. Em volta da mesa e do presidente, estavam sentados os ministros e chefes de Estado-Maior, isto é, as 24 autoridades mais poderosas do país.
Costa e Silva abriu a reunião anunciando que o momento era crítico e por isso teria que tomar "uma decisão optativa": ou a Revolução continuava ou se desagregava. Ele acreditava que todos ali, além do povo, eram testemunhas do seu empenho em promover a união da área política e da área militar. Demonstrando ressentimento pelo que classificava de falta de apoio político, o presidente não se conformava com a recusa do Congresso. As "considerações" que o seu governo dispensara aos políticos já lhe tinham criado inclusive problemas na área militar e revolucionária.
O presidente declarava não ter apego ao cargo e desejava chegar rapidamente ao fim do governo para passá-lo a quem pudesse promover a "harmonia entre a área política e a área militar, porque sem ela o Brasil irá à desagregação". Em seguida, comunicou que se retiraria por uns 15 minutos para que os conselheiros pudessem ler mais à vontade o documento que estava na pastas, o AI-5. Vinte minutos depois, Costa e Silva voltava ao salão, conduzido pelo General Portella, e dava a palavra a Pedro Aleixo, "a maior autoridade deste conselho".
O tom sereno do discurso do vice-presidente, a segurança da argumentação e a coragem de enfrentar uma platéia contrária, iriam impressionar até quem dele discordava, como o então major D'Aguiar: "Ele parecia tocado pelo Divino Espírito Santo: fez uma corajosa, emocionante, brilhantíssima exposição".
O orador começou sustentando que o caso Márcio Alves deveria ser encaminhado mais na área política do que propriamente na área jurídica, porque não seria legítimo esperar da Câmara um processo contra um dos seus membros por palavras proferidas durante os discursos, em debates ou em votos e pareceres. Ele não considerava "aconselhável", do ponto de vista jurídico, a representação ao Supremo Tribunal Federal.
Como o ato praticado implicaria o máximo, segundo Aleixo, crime de injúria, difamação e calúnia, as possíveis sanções ao deputado não poderiam ter o alcance da perda de mandato. O vice-presidente reconhecia o impacto do discurso das Forças Armadas e admitia ser aquele "um dos momentos mais graves e mais difíceis para a vida nacional".
Nesta oportunidade, pois, o que me parece aconselhável, seria, antes do exame de um Ato Institucional, a adoção de uma medida de ordem constitucional que viesse a permitir o melhor exame do caso em todas as suas conseqüências.
A medida seria a suspensão da Constituição por intermédio do recurso do estado de sítio. Acrescento, senhor presidente, que da leitura que fiz do Ato Institucional cheguei à sincera conclusão de que, o que menos se faz nele, é resguardar a Constituição (...). Da Constituição, que é, antes de tudo, um instrumento de garantia dos direitos da pessoa humana e da garantia dos direitos políticos, não sobra, nos artigos posteriores, absolutamente nada que possa ser realmente parecido com uma caracterização do regime democrático. (...)
Pelo Ato Institucional, o que me parece, adotado este caminho, é que estaremos com uma aparente ressalva da existência de vestígios dos poderes constitucionais decorrentes da Constituição de 24-1-67, e instituindo um processo equivalente a uma própria ditadura.
Enfim, a palavra que dava nome real aos verdadeiros objetivos daquela solene encenação: ditadura.
Aleixo admitia que pudesse haver necessidade de adotá-la, mas nesse caso, do ponto de vista jurídico, não havia dúvida: "O Ato Institucional elimina a própria Constituição. Mesmo assim, há indícios evidentes de que o discurso de Pedro Aleixo desagradou à grande maioria dos presentes, não só pela impaciência com que alguns o ouviram - a ponto de obrigar o presidente, a certa altura, a pedir silêncio - como pelos votos que se seguiram, todos os 22 a favor da edição do AI-5.
Quanto à reação do presidente, há um mistério. Observadores da reunião, como Heráclio Sales e Hernani D'Aguiar, um, assessor de Imprensa, e outro, de Relações Públicas, o primeiro contra o AI-5 e o segundo a favor, mas tendo em comum a mesma vontade de isenção, afirmam que Costa e Silva ficou tão impressionado com a fala de Aleixo que pediu ao sargento que cuidava dos gravadores que voltasse atrás a fita. O pretexto era dar oportunidade aos que, sentados do outro lado da mesa, não perdessem nada do que fora dito.
Na verdade, conforme aquelas testemunhas, Costa e Silva teria usado um hábil estratagema para, quem sabe, abalar algumas das convicções presentes e até reverter opiniões.
"Ele tinha esperança de que o Conselho de Segurança Nacional votasse contra", garante Heráclio, que reconstitui o episódio: Ficou aquele silêncio constrangedor e a voz de Pedro Aleixo massacrando novamente aquele colegiado todo favorável ao AI-5.
Os argumentos jurídicos, políticos, éticos, morais e de conveniência apresentados com aquela lucidez, aquela articulação verbal, um negócio extraordinário. Mas de qualquer maneira, o memorável discurso de Pedro Aleixo não mudou a opinião de qualquer dos outros 22 conselheiros.
Para votar a proposta presidencial, estavam ali dez oficiais-generais (Augusto Haman Rademaker Grunewald, ministro da Marinha; Aurélio de Lira Tavares, ministro do Exército; Márcio de Souza Mello, ministro da Aeronáutica; Afonso Albuquerque Lima, ministro do Interior; Emílio Garrastazu Médici, chefe do SNI; almirante Adalberto de Barros Nunes, chefe do Estado-Maior da Armada; general Adalberto Pereira dos Santos, chefe do Estado-Maior do Exército; general Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; tenente-brigadeiro Carlos Alberto Huet Sampaio, chefe do Estado-Maior da Aeronáutica; e general Jayme Portella, chefe da Casa Militar), três oficiais da Reserva (Mário David Andreazza, ministro dos Transportes: Jarbas G. Passarinho, ministro do Trabalho e Previdência Social; e José Costa Cavalcanti, ministro das Minas e Energia) e dez civis (Pedro Aleixo, vice-presidente da República; José de Magalhães Pinto, ministro das Relações Exteriores: Antônio Delfim Neto, ministro da Fazenda; Ivo Arzua Pereira, ministro da Agricultura; Leonel Miranda, ministro da Saúde; Tarso Dutra, ministro da Educação; Hélio Beltrão, ministro do Planejamento; Carlos F. de Simas, ministro das Comunicações; Rondon Pacheco, chefe da Casa Civil; e Luís Antônio Gama e Silva, ministro da Justiça).
Entre eles, seis eram parlamentares: Aleixo, Passarinho, Magalhães, Tarso, Rondon e Costa Cavalcanti.
Os personagens reais eram suas próprias caricaturas, e o choque entre o que se propunha e as razões pelas quais se dizia aceitar o proposto era um jogo de cinismo que nenhuma transposição dramática conseguiria superar. Além disso, uma retórica de elipses e eufemismos produzia subversões semânticas capazes de colocar a palavra democracia - que estava sendo expulsa daquela mesa e do país - em quase todos os discursos, enquanto a ditadura, que se instaurava, era tratada como uma ausente distante. Houve até quem usasse o artifício de condená-la no passado para melhor aderir à do presente. Outros, considerando-a inevitável, aproveitaram para seguir o cínico conselho de reação ao estupro: experimentaram um forçado prazer.
Como anunciava o texto que todos foram obrigados a ler, ia-se fechar o Congresso por tempo indeterminado, interrompiam-se as garantias constitucionais de vitaliciedade, inamobilidade e estabilidade, podia-se cassar, demitir, transferir, reformar funcionários civis e militares à vontade e suspendia-se o habeas corpus, o que - com o reforço da posterior Lei de Segurança Nacional - permitia manter qualquer preso acusado de delito político em regime de incomunicabilidade por dez dias - cinco a mais do que o Alvará de 1705, usado para extorquir as confissões dos Inconfidentes.
Para encenar esse rito de celebração, que inaugurava o reino do Arbítrio e da Tortura, o elenco se apresentava completo.
O primeiro a dizer a sua fala foi o ministro da Marinha, almirante Augusto Rademaker, como tal vestido. Parcimonioso nas palavras, ele fez parte do grupo que, por timidez ou esperteza, deu o seu recado de forma firme e direta. Ele discordava do vice-presidente e achava que havia uma situação de fato que não devia ser debatida "juridicamente, legalmente, ou constitucionalmente". "É oportuno fazer qualquer Ato Institucional como este." Mais sintéticos, só os votos do general Jayme Portella e de Mário Andreazza, as aparições mais curtas do espetáculo.
Mas houve os que quiseram roubar a cena e deram um show de representação. Não necessariamente pela ordem de entrada, merecem destaque especial Tarso Dutra, Lira Tavares, Ivo Arzua, Jarbas Passarinho, Albuquerque Lima e Hélio Beltrão. Tarso Dutra foi o único voto ao qual Costa e Silva, nas suas anotações sobre os desempenhos, acrescentou ao sim uma observação: "com modificações".
Era um exagero do anotador. Na verdade, o ministro da Educação propunha, em lugar do AI-5, um Ato Adicional que não revogaria dispositivos constitucionais e que poderia ser interpretado como possível abertura para uma revogação posterior. Em compensação, para não dar margem a equívocos, ele se dava o direito de reivindicar a primazia de ter sugerido muito antes, durante uma outra reunião do CSN, medida semelhante.
Nessa disputa inglória, Tarso tinha como concorrentes o ministro Ivo Arzua e o general Médici, que reivindicavam a mesma prioridade. Médici foi enfático: "Acredito, senhor presidente, que com a sua formação democrática, V.Exa. foi tolerante demais, porque naquela oportunidade eu já solicitava a V.Exa. que fossem tomadas medidas excepcionais para combater a contra-revolução que estava na rua."
Quanto a Rondon, este sim, senão apresentava objeções, oferecia ao menos uma sugestão restritiva: depois de demonstrar que o estado de sítio proposto por Aleixo era inviável por causa de detalhes constitucionais, o chefe da Casa Civil sugeria que se estabelecesse o prazo de um ano para o recesso do Congresso e para o próprio Ato Institucional. Não que fosse contra a medida, mas porque considerava aquele prazo suficiente "para que o governo possa debelar a subversão e o processo da guerra revolucionária ora em marcha".
O apoio maciço à proposta da Costa e Silva foi em geral oferecido com argumentos que faziam questão de reforçar a necessidade da medida. Falou-se em "contestação do processo revolucionário" e na ameaça da "contra-revolução". Pelo menos dois votantes, além de Médici, alegaram esse risco para darem o seu apoio: Orlando Geisel e Barros Nunes.
O adjetivo "magnânimo", para caracterizar a ação do presidente Costa e Silva e das Forças Armadas, foi usado por dois conselheiros, Albuquerque Lima e Ivo Arzua. O ministro da Agricultura, numa delirante intervenção - que constrange até hoje os que o ouviram ao vivo ou em gravação -, chegou a dizer que revidaria com "desforço pessoal", se a vítima da ofensa fosse ele e não "as magnânimas Forças Armadas".
Uma preocupação atraiu muitos adeptos: a que se relacionava com a "institucionalização", considerada prematura, do processo revolucionário - ou "autolimitação", para citar uma palavra usada por Albuquerque Lima e por Passarinho.
O "açodamento" (outra palavra de Passarinho) dessa institucionalização teria sido responsável pelo recrudescimento da "contestação" e da "contra-revolução" - de tal maneira que o próprio AI-5 talvez não fosse suficiente para barrá-las, ou não tão drástico", como advertiu o brigadeiro Huet.
Por isso, defenderam a sugestão de dar ao presidente "a possibilidade de realizar certas mudanças constitucionais" quatro ministros: Orlando Geisel, Albuquerque Lima, Delfim Neto e Gama e Silva.
A palavra ditadura só foi usada, depois de Aleixo, por três conselheiros: Magalhães Pinto, Passarinho e Hélio Beltrão.
O primeiro admitia, citando o vice-presidente, que realmente aquele ato estava instituindo uma ditadura, mas "se ela é necessária, devemos tomar as responsabilidades de fazê-la". Passarinho não tinha dúvida de que era "uma ordem ditatorial" o que se estava instalando ali. "Repugna enveredar pelo caminho da ditadura", confessava, para ressalvar: "É esta que está diante de nós." Se era inevitável, propunha então o ministro do Trabalho: "às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência".
A 43ª reunião do CSN foi encerrada com um discurso de Costa e Silva ressaltando a quase unanimidade do Conselho. "Evidentemente, houve observações", admitiu, sem lhes dar importância, "mas apenas de caráter formal e de redação." Sobre Pedro Aleixo, ele disse: "Peço a Deus que não me venha convencer amanhã de que ele é que estava certo, porque ele admitiu mesmo a hipótese do Ato final, porque entendo, como entende o Conselho na sua sabedoria de maioria, de quase unanimidade, que nesta escalada o degrau proposto se torna evidentemente desnecessário."
O presidente terminou a sua exposição com um desabafo: "Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus princípios e idéias que adoto uma atitude com esta. Adoto-as convencido de que elas são do interesse do país, do interesse nacional, que demos um basta à contra-revolução."
Pela primeira vez, em quase duas horas de reunião, a palavra "violência" era usada para definir o sentimento de alguém em relação ao ato aprovado. É possível, como acreditam alguns dos ex-auxiliares presidenciais, que Costa e Silva estivesse realizando um último esforço no sentido de atrair seus companheiros de governo para dividirem com ele aquele sentimento de "violência" - quando nada para uma espécie de expiação em grupo.
Mas os 22 membros dos CSN que votaram sim permaneceram irredutíveis e mais veementes na defesa do AI-5 do que o próprio autor. Antes mesmo de terminada a reunião, a notícia do AI-5 chegou à Câmara dos Deputados, quando discursava monsenhor Arruda Câmara manifestando a esperança de que o governo respeitasse a decisão parlamentar da véspera.
O plenário festivo do dia anterior caiu logo em profundo silêncio e se transferiu para os corredores e para o gabinete da Presidência, congestionado por uma meia dezena de parlamentares e jornalistas.
O líder da Oposição queria a convocação imediata de uma sessão extraordinária, pois achava que era um dever da Presidência da Câmara tentar qualquer gesto de resistência, ainda que simbólico.
Às 22h30min, o ministro da Justiça e o locutor Alberto Cury liam, em cadeia de TV, os seis considerandos e os 12 artigos que compunham o Ato Institucional nº 5, e mais o Ato Complementar nº 38, que decretava o recesso do Congresso.
Foi uma leitura monótona e ameaçadora como uma sentença de morte: "O presidente da República poderá decretar..." repetiu incansavelmente o locutor.
Além da cassação, todos os senadores e 100 deputados federais tiveram seus direitos políticos suspensos por 10 anos. Entre as punições a funcionários públicos, estavam o afastamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal - Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Vítor Nunes Leal - e de professores universitários como Caio Prado Júnior - condenado a quatro anos e meio de prisão por uma entrevista a um jornal estudantil - Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Mário Schemberg, Vilanova Artigas, Hélio Lourenço de Oliveira e uma dezena de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, entre outros, muitos outros.
Paralelamente a essa caçada aos criadores, o AI-5 desenvolveu um implacável expurgo nas obras criadas. O índex reunia um elenco variado, que ia de Chico Buarque, um dos artistas mais censurados e perseguidos da época, a Dercy Gonçalves e Clóvis Bornay.
A violência, que o marechal Costa e Silva confessou ter sentido ao editar o AI-5, ia deixar de ser uma figura de retórica. A partir do dia 13 de dezembro de 1968, ela se abateria de fato sobre a alma e a carne de toda uma geração.
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Contracultura
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Contracultura
Este artigo está no livro “O que é Contracultura?”, de Carlos Alberto Messeder Pereira (Coleção Primeiros Passos, Nova Cultural/Brasiliense, 1983). Antecipando sobre os beatniks, que perturbou os anos 50-60, com as indagações da contracultura em que a revolta e a contestação tiveram fatores predominantes nas discussões existencialistas da Guerra Fria. O liberalismo americano e o comunismo soviético e a corrida armamentista para destruir a Paz Humana.
“Vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura.” Este é o primeiro verso do poema “Howl” (Uivo), publicado em 1956 e alvo de um processo por obscenidade em São Francisco. Seu autor, Allen Ginsberg, junto com William Burroughs, Jack Kerouac, Carl Solomon eram os principais representantes dos chamados “Beatniks”.
Surgidos na década de 50, eram uma espécie de rebeldes e marginais, poetas e escritores, que viajavam por toda a América e usavam os fatos que aconteciam em seus livros. São a origem do movimento hippie. Vivendo na América do pós-guerra, assistiram toda a efervescência do mercado de consumo norte-americano, mas rejeitaram o consumismo e o proclamado “American Way of Life”, refugiando-se em bairros boêmios e apoiando-se em crenças como a da necessidade do “desengajamento em massa” ou da “inércia grupal”. Assim como os hippies foram depois os beats, eram bastante atraídos pelo orientalismo, principalmente o Zen Budismo.
Rejeitaram o intelectualismo, preferindo uma vida sensorial e desprezando a segurança de uma carreira ou uma posição social. Na mesma época dos beats, também havia outro grupo descontente com o tipo de vida da sociedade de consumo: eram os “hipsters”, que se opunham aos “squares”, ou seja, os quadrados e caretas, que os hipsters desprezavam por serem conformados e adaptados ao sistema.
Norman Mailer, um romancista americano profundamente ligado a todo o clima de contestação que já vinha se afirmando desde o início dos anos 50 foi quem chamou a atenção para os hipsters, mas quem lançou o termo foi Ginsberg no seu poema “Howl”.
Mailer consagrou o termo em 1958 no artigo: “The White Negro: Superficial Reflections on the Hipster”. O hipster é aquele que mantém uma posição de rebelião contra a situação e valores estabelecidos pela sociedade de consumo, por isso Mailer usou o termo “white negro”, porque os negros sempre discriminados e marginalizados tinham também de manter a atitude de revolta. Apesar do valor que Mailer percebe na atitude beat de “busca da sensação” e da “satisfação orgástica”, não aceita aquilo que ele vê como sua passividade ou falta de afirmação.
Assim, acima do beatnik, ele colocaria o hipster, cuja consciência dos extremos terrores da vida assemelha-se e é derivada da que tem o negro, “pois nenhum negro pode andar pela rua seguro de que a violência não irá encontrá-lo em seu caminho”.
O que Mailer admirava no hipster era a coragem de aceitar o desejo “de se desligar da sociedade, de existir sem raízes, de empreender essa viagem sem rumo pelos rebeldes imperativos do ego. Em suma, seja uma vida criminosa ou não, a decisão está em encorajar o psicopata que existe dentro de si, de explorar aqueles domínios de experiência em que a segurança é tédio e, portanto, doença (...)” É assim, nesse sentido, que aquela forma de “delinqüência juvenil” atualizada pela atitude hipster estava “desafiando o desconhecido”.
Em seguida a isso, no início da década de 60, começavam a se juntar na Califórnia jovens vindos de todos os cantos do país, geralmente cabeludos, com roupas coloridas e enfeitadas, que procuravam um novo estilo de vida, assim como os beats, baseado no prazer, doutrinas orientais, tudo regado a vários tipos de drogas, principalmente os alucinógenos.
Não se sabia ao certo o que estava acontecendo, alguns falavam em uma nova era, uma nova consciência. Se era uma revolução ou mais um modismo não se sabia, mas começou a circular na imprensa o termo “Contracultura”. Até esse momento, o movimento ainda era conhecido apenas pelos aspectos visuais como roupas, cortes de cabelos. Descendentes diretos dos beatniks, os hippies começaram a se afirmar em meados da década de 60.
Inicialmente, concentravam-se em São Francisco, Los Angeles, principalmente na região das ruas Haight-Ashbury. Em geral, eram jovens brancos, de classe média, com idade entre 17 e 25 anos, instruídos, bem nutridos e bem criados, mas que também repudiavam a sociedade industrial e o sistema capitalista, detestavam a ordem, o poder e as autoridades. Jamais canalizaram a sua energia para as formas de luta política até então conhecidas, fazendo manifestações que poderiam ser consideradas no mínimo muito estranhas, como, por exemplo, em 1967, quando centenas de hippies se reuniram em volta do Pentágono (central militar norte-americana) em protesto contra a guerra, e ameaçavam fazer o Pentágono “flutuar” com a força da mente. Ainda nesse ano foi realizado o “enterro” dos hippies, onde proclamavam: “Os hippies morreram, viva os homens livres!”
Ainda em 67, foi criado o “Youth International Party” (Partido Internacional da Juventude), este lançou a figura do “yippie”, que era uma espécie de hippie mais politizado. Em 1968, era estimado que havia, em média, 10 mil em Haight-Ashbury e 300 mil nos EUA e no resto do mundo, mas este número aumentou muito nos anos seguintes.
A intenção era criar uma nova sociedade, um mundo pleno de satisfação e prazer. Queriam se livrar da opressão, do patriarcalismo e, principalmente, livrarem-se de um governo que consideravam obsoleto, que preferia (e ainda prefere) gastar imensas fortunas em guerras do que usar esse dinheiro para cuidar de seus deserdados. Este é um dos pontos de partida do movimento que era a luta contra a Guerra do Vietnã.
Muitos hippies, a bem da verdade, só buscaram a satisfação do seu hedonismo, no abuso de drogas e do sexo livre. Estes eram insaciáveis, bebiam, fumavam, buscavam qualquer tipo de prazer a qualquer custo e, segundo eles, “sentem-se bem e não prejudicam ninguém.” Os hippies eram adeptos da não-violência, do gozo, do misticismo, do altruísmo, da vida em comunidade e voltada ao contato com a natureza, daí a criação de várias comunidades rurais alternativas em vários lugares do mundo.
Tornaram-se um grupo indefinível, pois vários outros haviam se agregado dando origem a novos grupos, por isso pode-se dizer, que muito se deve ao movimento hippie, pois dele foram criados ou ao menos fortalecidos, grupos ecológicos, feministas, de luta pelos direitos civis, de negros, pacifistas, etc. Não havia uma organização ou liderança central, o movimento expandiu-se espontaneamente, como resposta à vida cada vez mais mecanizada da sociedade tecnocrata.
Manifestos como este abaixo, deixam mais ou menos claro o que eles queriam – este foi afixado na entrada da Sorbonne em 1968: “A revolução que está começando questionará não só a sociedade capitalista como também a sociedade industrial. A sociedade de consumo tem que morrer de morte violenta. A sociedade da alienação tem que desaparecer da História. Estamos inventando um mundo novo e original. A imaginação está no poder.” Os fundamentos ou princípios básicos eram três:
“1. Deves fazer tua própria obra, qualquer que seja e quando quiseres.
2. Separa-te da sociedade em que até agora tens vivido, abandona-a em definitivo.
3. Sacode a mente de cada indivíduo digno que possas vir a encontrar, mostra-lhe o caminho das drogas, se não podes franquear-lhe a beleza, o amor, a honra, o prazer.”
Arnold Toynbee, historiador, define-os como “uma luz vermelha de advertência à forma de vida norte-americana” e um sociólogo os descrevia como “expatriados que vivem junto de nós, mas muito além de nossa sociedade.” A maior parte da filosofia, estética, música é derivada do uso dos alucinógenos, principalmente o LSD.
Essas drogas, chamadas de “psicodélicas”, propiciam um estado mental de deslumbramento, visões incríveis, percepção e sentidos aguçados e sublimados. Esses efeitos variam muito de pessoa a pessoa e são motivo de grandes controvérsias entre médicos e especialistas.
Muitos indivíduos experimentaram o que se chama uma “bad trip”, ou seja, uma “viagem ruim”, que é exatamente o contrário da sensação de bem-aventurança que a maioria das pessoas sente – visões horríveis, gritos e angústias, são alguns desses sintomas. O que imperava na cena da época é o LSD-25 e os hippies no lugar dos beatniks, associados a toda uma nova concepção cultural.
É a fase do “Flower Power” e do inesquecível “Verão do Amor”, com seus “vinte mil ciganos brancos, cantando, dançando, cobertos de flores, colares, pulseiras de contas.”
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista do Movimento Estudantil
No dia 1° de abril de 1968, a sede da UNE é incendiada no Rio de Janeiro. Os estudantes tentam resistir ao golpe militar. Mesmo sem sede a UNE continua ativa, na clandestinidade, criticando a intervenção norte-americana na educação brasileira, estabelecida no acordo MEC/USAID. Enquanto o Brasil vive tempos de violenta repressão, explodem em vários países as manifestações estudantis. Apesar das questões específicas nacionais, há outras que são comuns a todos como a guerra, a justiça social, a liberdade de expressão.
Segundo, Márcio Moreira Alves do Jornal da FEUB - 1968 discorre que quatro anos depois do golpe, a facção "linha dura" do governo militar, radicalizou ainda mais sua ação política, dando início a um dos períodos mais duros dos governos militares. Punições, cassações, suspensão de direitos políticos, prisões, espancamentos, torturas, desaparecidos e exílios, o Brasil respirava o caos político.
Durante o período de Guerra Fria, havia uma crescente influência norte americana sobre a sociedade brasileira. Mas foi na educação que a interferência americana acabou provocando o protesto veemente da UNE - União Nacional de Estudantes. Segundo os dirigentes da UNE, o governo tinha a intenção de transformar, gradativamente, todas as universidades federais em regime de Fundação, como uma imposição externa de cumprimento dos acordos feitos pelo Brasil com a Agência de Desenvolvimento dos Estados Unidos-USAID. A discordância com os acordos MEC-USAID se tornaria a principal reinvindicação dos estudantes nesse momento. "A dominação da mentalidade e formação dos jovens é uma das formas mais antigas de manutenção do poder".
Zuenir Ventura no seu livro - 1968 o ano que não terminou - afirma que no dia seguinte ao golpe militar de 1964, o prédio da UNE foi incendiado por militantes de direita, o que indicava que durante os próximos anos a situação de repressão e violência contra os estudantes só pioraria. Depois da vitória da ditadura, o novo governo promulgou em novembro de 1964 uma lei fascista com o objetivo de sufocar as atividades estudantis. A lei imediatamente apelidada de "Lei Suplicy" para que não se esquecesse o nome do seu mentor, o Ministro da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda.
A nova lei vedava aos estudantes a participação em questões políticas, proibindo sua liberdade organizativa, criando assim, um clima favorável ao surgimento de um movimento político estudantil de denúncia e crítica à ditadura militar. Um aspecto de fundamental importância nesse momento é a influência dos meios de comunicação no fortalecimento do movimento estudantil. As imagens invadiam os lares brasileiros através da televisão; soldados americanos nas selvas vietnamitas, feministas queimando sutiãs, negros pobres americanos clamando contra o racismo nas ruas, barricadas em Paris, flores contra tanques em Praga. Muitos jornais que haviam participado da derrubada do regime constitucional do Presidente João Goulart, voltavam-se agora, contra a clara inclinação totalitária e o endurecimento do novo regime.
Na tentativa de controlar a ação dos estudantes, a polícia não hesitava em agir com violência. Em março de 1968, em um desses lamentáveis conflitos, a polícia invadiu o Restaurante Calabouço no Rio de Janeiro. O restaurante era custeado pelo Governo para atender estudantes carentes, e naquele dia, um grupo de estudantes preparava uma passeata em protesto contra o abandono em que ele se encontrava.
Na operação, a polícia mata com um tiro, o estudante secundarista Edson Luis Lima Souto, de 16 anos, natural de Belém do Pará. A morte de Edson Luis demonstrou claramente, inabilidade e intolerância oficial em relação aos estudantes e a intenção de eliminar os focos de agitação e as lideranças do movimento.
No enterro de Edson Luis, 50.000 pessoas se aglomeravam em frente à Assembléia Legislativa. O caixão coberto com a bandeira brasileira desfilou pela cidade, em meio ao um clima de revolta que se espalhava pelo país inteiro.
A Igreja católica tradicionalmente conservadora assume a defesa dos estudantes como ocorreu na missa de sétimo dia do estudante Edson Luis, quando a Igreja de Nossa Senhora da Candelária foi cercada pela polícia com ordens expressas de evitar uma nova passeata. Temendo a violência policial ocorrida naquela manhã, os padres deram-se as mãos formando duas correntes, no meio das quais iam os estudantes. "Ainda paramentados com suas alvas, sobre as quais desciam as estolas roxas, porque era Quaresma, os 15 padres seguiam o vigário-geral, que por vezes tanto odiaram, nesse cortejo que caminhava lentamente em direção a um muro de cavalos indóceis e cavalarianos irascíveis".
Nos meses que se seguiram, o cerco se fechou em cima dos estudantes, a polícia e seu serviço de informações vigiava e prendia as lideranças mais combativas. Aos poucos, a tática dos estudantes como os "comícios relâmpagos" ou as correrias na contramão do tráfego das grandes avenidas eram desarticuladas pela polícia. Episódios como o ocorrido em junho no campo do Botafogo, quando depois de uma assembléia na Faculdade de Economia onde cerca de 400 estudantes foram tangidos pela Polícia Militar, faziam crescer a adesão da população à luta dos estudantes.
"O que ocorreu ali, no gramado do time que iria conquistar, naquele ano o seu único campeonato nos último 20 anos. Chocou a cidade - uma cidade que, desde a morte de Edson Luis, achava que já tinha assistido a tudo em matéria de violência. Mais do que pela agressão física, as fotos "hediondas" indignavam como símbolos do ultraje. A descrição de soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o cassetete entre as pernas das moças, junto às imagens de jovens de mãos na cabeça, ajoelhados ou deitados de bruços com o rosto na grama, eram uma alegoria da profanação"
No dia seguinte, não somente os estudantes, mas o povo lutou contra a polícia durante quase 10 horas no episódio que ficou conhecido como "sexta-feira sangrenta". O centro do Rio de Janeiro viveu momentos de violência generalizada deixando um saldo de 23 pessoas baleadas, quatro mortas, muita gente ferida, intoxicada, espancada ou amontoadas na prisão do DOPS.
A situação de violência chega a um ponto tal que a classe média brasileira que em 1964, apreensiva apoiara o golpe militar, começava a reagir e a abraçar a luta dos estudantes. As imagens de estudantes humilhados, agredidos por policiais no campo do Botafogo deixava o país pronto a se levantar radicalmente contra a ditadura militar.
A "Questão Estudantil" estava agora nas mãos da polícia, e diante da passividade do ministro da educação, os estudantes organizaram no dia 26 de junho, uma passeata que contou com a assombrosa participação de cem mil pessoas na Cinelândia. Talvez hoje em dia, cem mil pessoas não assustem muito, mas em 1968 a passeata teve um efeito arrasador. Comandados por Vladimir Palmeira e Luis Travassos (Presidente da UNE), os estudantes se lançam formalmente na luta contra a ditadura. Nesta data é realizada, com permissão do governo estadual, no Rio, a "Passeata dos 100 mil", manifestação contra o regime militar organizada por estudantes, artistas, intelectuais e trabalhadores.
O presidente Costa e Silva recebe comissão de estudantes e intelectuais formada na passeata dos 100 mil. Costa e Silva sanciona lei que declara 68 municípios como de interesse da segurança nacional. O ministro da Justiça, Gama e Silva, proíbe qualquer tipo de manifestação no país. Costa e Silva propõe Estado de Sítio caso as manifestações estudantis continuem.
A Faculdade de Filosofia da USP que era o maior centro estudantil de esquerda da época e que já havia sido invadida logo após o sucesso do golpe de 1964. A Faculdade sofria constantes ameaças de alunos da Faculdade Mackenzie, situada na mesma rua, de onde surgiu um grupo radical ultra-direitista, filiado à grupos anticomunistas, conhecido como CCC (Comando de Caça a Comunistas).
No dia 2 de outubro de 1968, os alunos de filosofia faziam um "pedágio" arrecadando fundos para o congresso da UNE, quando foram atacados por alunos do Mackenzie. Foram ovos, palavrões, paus, pedras, bombas molotov, gás lacrimogêneo, pistolas e rifles. Os estudantes transformaram a rua Maria Antônia em um verdadeiro campo de guerra. Quando as coisas acalmaram, no meio da fumaça, uma nova tragédia se anunciava, mais um estudante morto, José Guimarães, um estudante secundarista que viera ajudar a turma da filosofia.
Quando a polícia e os direitistas depredaram a Maria Antônia, as faculdades de filosofia, foram criadas para ser o centro nervoso e irradiador do pensamento universitário, para fazer a ponte também com a sociedade através do ensino e da formação de professores. A discussão sobre a cobrança de anuidades nas universidades públicas gerou e vulgarizou uma imagem distorcida do ensino superior, como se ele fosse o topo estreito de uma pirâmide de base larga.
Neste sentido vê-se a universidade como uma promoção. O sistema educacional forma círculos concêntricos, e no centro está a universidade, e no centro da universidade deveria estar a Faculdade de Filosofia, com sua vocação para o pensamento crítico e radical, onde "livre pensar é só pensar", como dizia o Millor Fernandes.
Foi esta idéia que foi destruída ou mutilada na universidade brasileira, com conseqüências danosas e irreparáveis: no centro da universidade agora está a visão de uma burocracia administrativa que faz a ponte com projetos governamentais, já que a área privada manifesta cronicamente pouco interesse por ela, preferindo comprar pacotes prontos do exterior do que desenvolver pensamento e tecnologias próprias. Mas o pensamento universitário continua existindo e resistindo, e a Faculdade, ou o que dela restou, também.
O Congresso clandestino da UNE em Ibiúna (SP) e a prisão de todos os estudantes. Em ação da VPR, o capitão do Exército americano Charles Chandler é morto. Cerca de mil estudantes que participavam do XXX Congresso da UNE, iniciado clandestinamente num sitio, em Ibiúna, no Sul do Estado, foram presos por soldados da Força Pública e policiais do DOPS.
Segundo uma publicação da Folha de S.Paulo, domingo, 13 de outubro de 1968. Estes chegaram sem serem pressentidos e não encontraram resistência. Toda a liderança do movimento universitário foi presa: José Dirceu, presidente da UEE, Luís Travassos, presidente da UNE, Vladimir Palmeira, presidente da União Metropolitana de Estudantes, e Antonio Guilherme Ribeiro Ribas, presidente da União Paulista de Estudantes Secundários, entre outros. Eles foram levados diretamente ao DOPS. Os demais estão recolhidos ao presídio Tiradentes.
Desde segunda-feira os habitantes de Ibiúna notaram a presença de jovens desconhecidos, a pequena cidade de 6 mil habitantes começou a ser visitada por elementos estranhos. De hora em hora, um ônibus saia de São Paulo com destino a Piedade. Nele, grupos de 10 e 20 embarcavam. Desciam em Ibiúna e dali eram transportados em jipes até o local do Congresso. A população da cidade foi ficando inquieta. A Policia local também. Os primeiros contatos com as autoridades da capital foram feitos pelo delegado Otavio Trabalhe de Camargo.
O DOPS enviou elementos para investigações. As caravanas continuaram a chegar. Quinta-feira, o DOPS e o pessoal de Comunicações da Força Pública já sabiam da localização exata do Congresso. Planos foram traçados e o esquema de repressão acionado. O 7º BP de Sorocaba, avisado, colocou seus homens de prontidão. Aguardava-se apenas a ordem para a operação de ataque.
O prefeito, sr. Semi Isa que "mais de 500 homens armados estavam na serra de São Sebastião", convocou o delegado Otavio de Camargo e pediu providências. O delegado, já ciente da presença dos estudantes na região, entrou em contato com a Secretaria da Segurança e DOPS. Resolveu-se invadir o sitio Muduru no mesmo dia à noite ou sábado pela manhã.
De 2ª a 5ª, os estudantes, em pequenos grupos, iam a Ibiúna comprar mantimentos, sob o olhar desconfiado dos moradores. De uma só vez chegaram a comprar NCr$ 200,00 de pão. O açougue também foi visitado por diversas vezes. Na farmácia de Ibiúna, os estudantes compravam escovas e pasta de dentes. Todos esses fatos eram comunicados à Policia ou serviam para os comentários de esquina. Dois homens do DOPS, durante três dias, observaram o vaivém. Chegaram até a consertar um carro numa oficina mecânica. A chapa desse carro foi anotada e comunicada ao delegado. Era uma Kombi de São Paulo, 24-44-80.
Às 22 horas de ontem, Ibiúna preparava-se para dormir. Um único bar estava aberto, e era difícil localizar o delegado da cidade. Ele estava no Fórum, de onde tentava falar com a Secretaria de Segurança Pública. A primeira informação foi de que nada havia, "apenas uma suspeita de movimento estudantil". À meia-noite, o carro da reportagem ainda estava parado em frente ao prédio do Fórum. Um tenente foi dizer aos repórteres que "às vezes não podemos informar nada, mas talvez os senhores possam acompanhar as diligências".
Somente às três horas da manhã ficou confirmado que se preparava uma incursão ao local onde os "elementos estranhos estavam". Depois de avançar alguns quilômetros de carro e outro trecho a pé, por causa da lama da estrada, 215 policiais chegaram ao local às 7h15 de ontem, com garoa fina e frio intenso, organizaram o cerco aos estudantes e dispararam algumas rajadas de metralhadora para o ar, para intimidá-los.
Sem resistir, os congressistas foram colocados em fila e levados aos ônibus requisitados para transportá-los para a capital. O pessoal da Força Pública vinha de Sorocaba - 7º Batalhão Policial, os civis eram do DOPS, chefiados pelos delegados Paulo Boncristiano e Nascimento. A tropa estava fortemente armada. Além de metralhadoras leves e munição em quantidade, eles traziam caixas com bombas. Seguindo a caravana policial, o carro da reportagem foi interceptado mil metros adiante e depois nos permitiram passar. A caravana seguiu em alta velocidade pela estrada de terra. Oito quilômetros adiante, a primeira parada. Era o sitio Piaí, local onde os estudantes fizeram suas primeiras reuniões.
Uma casa grande, ainda em construção, foi cercada por parte da tropa. A outra seguiu para o bairro dos Alves, local da grande concentração. As portas da casa foram arrombadas, gavetas reviradas. Havia marcas de pneus de carros no pátio. Foram apreendidos um vidro de ácido e o livro "Doente, ajuda o teu médico". Um investigador se encarregou de guardar o material. Da casa revistada avistava-se num morro, a 300 metros, uma igrejinha. Ouvia-se cântico, mas não dava para entender o que era. As vozes cantaram mais altas, em coro, uma musica suave, bonita.
O pessoal do DOPS avisou ao delegado que havia três homens de camisa verde nas matas, perto da igreja. Ainda se cantava no templo. Os policiais do DOPS resolveram investigar. Foram distribuídos pelas baixadas e morros, armas na mão. Houve certo "suspense", rapidamente desfeito. — Voltem, estão cantando é na igreja mesmo. Não há estudante lá, disse um investigador. Embarcada a tropa, a caravana seguiu. No quilometro onze, a lama não deixou os carros prosseguirem. Começou a caminhada a pé. Por rádio, o pessoal da comunicação localizou o cel. Divo Barsotti. Foram todos ao seu encontro.
Um quilômetro adiante foi encontrada a kombi 24-44-80, com um pneu furado. Mais adiante, uma camioneta Ford, de Curitiba, chapa 3-33-52. Três estudantes foram presos e rapidamente levados para um carro. Uma capa de carteira os identificou como pertencentes à União Paranaense dos Estudantes. O delegado Boncristiano encontrou no carro um grande cartaz com a fotografia de "Che" Guevara. "Criar dois, três, vários Vietnãs", dizia a legenda.
O major Abel, subcomandante da operação, informou ao cel. Barsotti que a tropa teria que ir devagar por causa do terreno lamacento e escorregado. Depois dos dois pelotões reunidos, a marcha foi reiniciada pela estrada e pelas picadas. Caindo num buraco estava o jipe 26-34-87, de São Paulo. Pacotes de cigarros, caixas com lampiões e biscoitos foram encontrados. O DOPS investigou as matas próximas. O cel. Divo traçou planos, distribuiu seus homens em círculo. Cinco minutos depois foi descoberto um vigia. Estava numa cabana improvisada de plástico, numa baixada. Só percebeu a tropa tarde demais. Depois de subir uma elevação, os policiais do DOPS e o pessoal da Força Pública prepararam-se para o ataque.
Da elevação notava-se o movimento dos estudantes, a maioria sentada ou deitada. A ordem foi dada e várias rajadas de metralhadoras foram dadas para o ar. Nova carga de metralhadora para o ar. Pequeno grupo corre para as matas. Uma moça de blusa vermelha corre em direção à serra de São Sebastião. Os estudantes estão cercados. Os policiais descem e eles ficam em coluna por um. O pessoal do DOPS começa a revista. As barracas estão reviradas. Uma casa é revistada minuciosamente. Não há reação. Todos estão parados, sem falar.
O coronel Barsotti quer pressa para voltar. Diz que o seu problema é a locomoção dos estudantes. Manda um oficial requisitar ônibus em São Paulo. Os estudantes estão reunidos para a revista, José Dirceu entre eles. Um investigador chega-se ao delegado Boncristiano e diz: "Aquela cara não é conhecida?" O delegado olha e exclama: "É o José Dirceu!"
O líder estudantil é retirado do meio da massa e levado antes que os outros, para onde estão os carros. Dirceu vai tranqüilo, ri. Dentro do carro do delegado, conversa com ele. Boncristiano explica que ele é o único a seguir direto para o DOPS, "para ficar à disposição da Justiça". José Dirceu está com prisão preventiva decretada. O comandante da tropa ordena que os estudantes sigam em coluna de quatro. Os soldados vão pelas laterais. É a volta de mais dez quilômetros de lama e terreno escorregadio.
O pessoal do DOPS procura Luís Travassos, presidente da UNE. Por duas horas e meia a caravana anda na lama até os transportes. O cel. Divo manda acomodar as moças nos ônibus. Pede mais transporte e ordena que os estudantes sejam levados para o Presídio Tiradentes.
Na revista feita pelos policiais, poucas armas são encontradas: uma "luger", revolver, duas pistolas 7,65, munição e uma carabina. Os livros que falam de guerrilha são em maior quantidade. O capitão Armon, do Exército - único membro desta arma presente - assistente do comandante-geral da Força Pública, está revoltado. Vistoriando as malas de estudantes, o capitão encontra o livro "Guerra-Guerrilha-Chê". A capa do livro é o projeto Rondon III. O capitão afirma: "Faço questão de levar isso para entregar ao comandante da II Região Militar, para que ele tenha conhecimento sobre esses moços".
meia-oito.
o ano da revolução.
Sob o ponto de vista da Primavera em Praga
Nos anos 50-60 houve a Cortina de Ferro no Leste Europeu durante o pós-guerra, que apesar das perdas humanas e materiais, a URSS saiu da guerra como grande potência econômica e militar. Aumentou a centralização política a pretexto de uma rápida recuperação econômica e do perigo de uma nova guerra, desta vez contra as potências ocidentais, tendo os Estados Unidos à frente.
A Primavera de Praga. A desestalinização pós-1956 conduziu a reformas tímidas na economia e na política, estimulando movimentos populares. Estes resultaram, em janeiro de 1968, na substituição do governo e na adoção de reformas democratizantes sob a liderança de Alexander Dubcek, que prega a criação de um socialismo de rosto humano. O movimento é sufocado em agosto de 1968 pela invasão das tropas soviéticas.
E na Romênia, a Frente Nacional Democrática, formada por comunistas, socialistas e pela Frente dos Camponeses, venceu as eleições de 1946. O rei abdicou e foi proclamada a república em 1947. Em 1948, é fundado o Partido Operário Romeno (comunista), que passou a controlar o Estado. Realizou a reforma agrária e executou um plano de industrialização. A partir de 1956, afastou-se do controle soviético. Manteve neutralidade em relação ao conflito sino-soviético, adotou posições nacionalistas frente à URSS e condenou a invasão da Checoslováquia em 1968.
A Cortina de Ferro foi a contradição da esquerda, assim como a Guerra do Vietnã foi a contradição da direita.
5 de Janeiro - Início da Primavera de Praga. O político reformista Alexander Dubček (* 27.11.1922 Uhrovec/Eslováquia Ocidental, † 7.11.1992 ) é eleito para Primeiro Secretário do Comite Central do Partido Comunista da CSSR (Checoslováquia). Em Abril é constituído um novo governo por Oldrich Cernik. São conduzidos processos reformistas, que o órgão do partido "Rudé Pravo" resume com as palavras “o caminho checoslovaco do socialismo”. Em especial a sociedade deve ser liberalizada para que o socialismo obtenha um “rosto humano”. Entre outras coisas a censura é eliminada e dá-se à população a liberdade de reunião e de manifestação. Dubcek fica mundialmente ligado ao célebre símbolo da “Primavera de Praga”.
A Primavera de Praga, realizada em 1968 na Tchecoslováquia, é o movimento liderado por intelectuais reformistas do Partido Comunista Tcheco em promover grandes mudanças na estrutura política, econômica e social do país. A experiência de um "socialismo com face humana” foi comandada pelo líder do Partido Comunista local, Alexander Dubcek. A proposta surpreendeu a sociedade tcheca, que em 5 de abril de 1968 soube das propostas reformistas dos intelectuais comunistas.
O objetivo de Dubcek era "desestalinizar" o país, removendo os vestígios de despotismo e autoritarismo, que considerava aberrações no sistema socialista. Com isso, o secretário-geral do partido prometeu uma revisão da Constituição, que garantiria a liberdade do cidadão e os direitos civis. A abertura política abrangia o fim do monopólio do partido comunista e a livre organização partidária, com uma Assembléia Nacional que reuniria democraticamente todos os segmentos da sociedade tcheca. A liberdade de imprensa, o Poder Judiciário independente e a tolerância religiosa eram outras garantias expostas por Dubcek.
As propostas foram apoiadas pela população. O movimento que propôs a mudança radical da Tchecoslováquia, dentro da área de influência da União Soviética. Assim sendo, diversos setores sociais se manifestaram em favor da rápida democratização. No mês de junho, um texto de “Duas Mil Palavras” saiu publicado na Liternární Listy (Gazeta Literária), escrito por Ludvik Vaculik e assinado por personalidades de todos setores sociais, pedindo a Dubcek que acelerasse o processo de abertura política.
Eles acreditavam que era possível transformar, pacificamente, um regime ortodoxo comunista para uma social-democracia aos moldes ocidentais. Com estas propostas, Dubcek tentava provar a possibilidade de uma economia coletivizada conviver com ampla liberdade democrática.
A União Soviética, temendo a influência que uma Tchecoslováquia democrática e socialista, independente da influência soviética e com garantias de liberdades à sociedade, pudesse passar às nações socialistas e às "democracias populares", mandou tanques do Pacto de Varsóvia invadirem a capital Praga em 20 de agosto de 1968.
Confrontos entre tropas do Pacto e manifestantes aconteceram nas ruas da cidade. Dubcek foi detido por soldados soviéticos. Ele foi levado a Moscovo e destituído do cargo.
As reformas foram canceladas e o regime de partido único continuou a vigorar na Tchecoslováquia. Em protesto contra o fim das liberdades conquistadas, o jovem Jan Palach ateou fogo ao próprio corpo numa praça de Praga em 16 de janeiro de 1969.
Alexander Dubcek (1921-1992) foi um chefe de estado da antiga Tchecoslováquia, tornou-se líder do Partido Comunista da Tchecoslováquia em 1968 e iniciou as reformas da "Primavera de Praga".
Dubcek nasceu em Uhrovec (atual Eslováquia) e foi eleito secretário-geral do Partido Comunista em 1968. Dubcek implementou políticas para liberalizar o regime, como a abolição da censura, preocupando os líderes soviéticos, que temiam a saída da Tchecoslováquia do bloco soviético. Tropas militares do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia em agosto de 1968. Dubcek foi expulso do Partido Comunista em 1970, passando a trabalhar para a administração florestal. Em 1989, com as reformas ocorridas no país, Dubcek foi eleito para o parlamento.
O ano de 1968 será lembrado como o da rebeldia, dos sonhos esmagados. Foi o ano que marcou o fim da Primavera de Praga, um experimento de “socialismo com face humana” comandado pelo líder do Partido Comunista da então Checoslováquia, Alexander Dubcek. O movimento representava o desabrochar da democracia atrás da Cortina de Ferro. Mudanças inéditas no bloco socialista eram adotadas no país: imprensa livre, Judiciário independente e tolerância religiosa. Dubcek introduzia reformas políticas e econômicas, com o apoio do Comitê Central.
Em 5 de abril de 1968, o povo tcheco tomou-se de surpresa quando soube dos principais pontos do novo Programa de Ação do PC tchecoslovaco. Fora uma elaboração de um grupo de jovens intelectuais comunistas que ascenderam pela mão do novo secretário-geral Alexander Dubcek, indicado para a liderança em janeiro daquele ano.
Dubcek um completo desconhecido decidira-se a fazer uma reforma profunda na estrutura política do país. Imaginara desestalinizá-lo definitivamente, removendo os derradeiros vestígios do autoritarismo e do despotismo que ele considerava aberrações do sistema socialista.
Apesar da desestalinização ter-se iniciado no XXº Congresso do PCURSS, em 1956, a Tchecoslováquia ainda era governada por antigos dirigentes identificados com a ortodoxia. Ainda viviam sob a sombra do que Jean-Paul Sartre chamou de “o fantasma de Stalin”. Dubcek achou que era o momento de dar uma face humana ao socialismo.
Além de prometer uma federalização efetiva, assegurava uma revisão constitucional que garantisse os direitos civis e as liberdades do cidadão. Entre elas a liberdade de imprensa e a livre organização partidária, o que implicava no fim do monopólio do partido comunista. Todos os perseguidos pelo regime seriam reabilitados e reintegrados. Doravante a Assembléia Nacional multipartidária é quem controlaria o governo e não mais o partido comunista, que também seria reformado e democratizado. Uma onda de alegria inundou o país.
De todos os lados explodiram manifestações em favor da rápida democratização. Acreditava que seria possível transitar pacificamente de um regime comunista ortodoxo para uma social-democracia ocidentalizada. Dubcek tentava provar a possibilidade do convívio entre uma economia coletivizada com a mais ampla liberdade democrática.
O mundo olhava para Praga com apreensão. O que fariam os soviéticos e os seus vizinhos comunistas? As liberdades conquistadas em poucos dias pelo povo tcheco eram inadmissíveis para as velhas lideranças das “Democracias Populares”. Se elas vingassem em Praga eles teriam que também liberalizar os seus regimes. Os soviéticos por sua vez temiam as conseqüências geopoliticas. Uma Tchecoslováquia social-democrata e independente significava sua saída do Pacto de Varsóvia, o sistema defensivo anti-OTAN montado pela URSS em 1955. Uma brecha em sua muralha seria aberta pela defecção de Dubcek.
Então, numa operação militar de surpresa, as tropas do Pacto de Varsóvia lideradas pelos tanques russos entraram em Praga no dia 20 de agosto de 1968.
A Primavera de Praga sucumbia perante a força bruta. Sepultaram naquela momento qualquer perspectiva do socialismo poder conviver com um regime de liberdade. Dubcek foi levado a Moscou e depois destituído. Cancelaram-se as reformas, mas elas lançaram a semente do que vinte anos depois seria adotado pela própria hierarquia soviética representada pela política da glasnost de Michail Gorbachov.
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